
Os elétricos puros (BEV) continuam a crescer no mercado brasileiro. Em 2025, as venedas foram 29% maiores que em 2024, o que é acima da média mundial de 20%. O crescimento é em grande parte puxado pelo sucesso do BYD Dolphin (Mini e GS), que acabou virando um dos favoritos dos motoristas de aplicativo.
Mesmo assim, muitos consumidores se mantêm receosos de aderirem à inovação – às vezes por medo infundado, mas às vezes com todo motivo.
Razões infundadas são o medo de incêndio (que são até 83 vezes menos comuns que em carros convencionais) ou a ideia de que o carro irá virar sucata pela degradação de bateria em poucos anos (as baterias devem durar mais que os carros, segundo diversos estudos).
Mas uma das razões legítimas é a desvalorização pela qual os carros passam após comprados – ainda que o número talvez seja menos dramático do que as pessoas imaginam. Os números levantados pelo Índice Webmotors, com base em anúncios de compra e venda de usados em 2025, apontaram que os elétricos desvalorizam cerca de 3 vezes mais que carros convencionais. No último ano, a depreciação dos elétricos puros chegou a 11,95% ante 3,94% dos modelos a combustão.
Para entender melhor os motivos, o EV Drops conversou com Cassio Pagliarini, CMO da Bright Consulting, empresa de consultoria estratégica com ampla experiência no setor automotivo. Segundo o especialista, não existe apenas um fator responsável pela desvalorização dos carros elétricos no Brasil. Na verdade, trata-se de um conjunto de elementos que, somados, impactam diretamente o preço de revenda.
Principais motivos da desvalorização do carro elétrico
Pagliarini destacou três pontos centrais que explicam por que o carro elétrico desvaloriza mais do que os modelos a combustão:
- Preço elevado de compra: os veículos elétricos ainda chegam ao mercado com valores altos. Isso faz com que, quando novos modelos mais baratos são lançados, os anteriores percam valor rapidamente.
- Infraestrutura de recarga limitada: embora esteja em expansão, a rede de carregadores públicos ainda não é suficiente para atender a todos os motoristas. Essa limitação gera a infame ansiedade de autonomia*, que reduz o interesse de potenciais compradores.
- Confiança na durabilidade das baterias: mais do que a garantia técnica, existe a dúvida sobre quanto tempo a bateria realmente vai durar. Ainda que os números indiquem que a preocupação seja exagerada, isso pesa na decisão de compra e influencia na revenda.
Um detalhe sobre a ansiedade de autonomia: ela é maior nas pessoas que pensam em comprar carros elétricos do que nas que efetivamente têm um. Então essa ansiedade, como a questão da durabilidade das baterias, tem um quê de desinformação. O dono conhece seu carro, sabe até onde pode ir, e cria hábitos para carregar.
Justificados ou não, esses fatores combinados criam um cenário em que o carro elétrico sofre uma desvalorização maior no Brasil, especialmente nos primeiros anos de uso.
Tendência é de melhora
Apesar das dificuldades atuais, Pagliarini acredita que o futuro será mais positivo para quem aposta nos veículos elétricos. Ele explica que os estudos recentes mostram que a degradação das baterias é muito menor do que se imaginava. Pelos números apresentados por ele, a perda é de apenas 2% ao ano. Isso significa que, após cinco anos de uso, a bateria terá perdido cerca de 10% da capacidade, e em 20 anos, aproximadamente 20%. Esses números são considerados normais e não comprometem o desempenho do carro. Um estudo britânico recente corrobora esses números, indicando que, entre 8 e 12 anos de uso, os carros mantêm em média 85% de sua bateria.
Além disso, a infraestrutura de recarga está evoluindo. Cada vez mais motoristas instalam carregadores em casa, o que garante autonomia e praticidade – e se tornou um direito na cidade de São Paulo. O especialista também aponta a chegada de fabricantes chineses com preços mais competitivos, o que deve acelerar a popularização dos elétricos no país.
Segundo Pagliarini, a fase atual é apenas uma etapa de adaptação: “Esse início é difícil porque é uma tecnologia nova e desconhecida. Mas é transitório. Em três anos, a desvalorização não será mais um problema tão relevante”, afirma.
Carro elétrico desvaloriza mais, mas compensa
Mesmo com a desvalorização, o carro elétrico é uma escolha vantajosa para quase todo tipo de motorista. Entre os principais benefícios estão:
- Custo por quilômetro rodado menor: a eletricidade é mais barata do que a gasolina ou o etanol, o que reduz o gasto diário. Em média, o motorista gasta 75% a menos para mover um carro elétrico.
- Manutenção simplificada: não há troca de óleo, correias ou escapamento, o que diminui custos e visitas à oficina. Um elétrico em média gasta 50% a menos em manutenção.
- Conforto ao dirigir: o torque imediato proporciona aceleração rápida e o motor silencioso garante uma experiência mais agradável.
Outro ponto interessante é que a desvalorização pode se tornar uma oportunidade para quem compra um carro elétrico usado. Um modelo seminovo pode oferecer tecnologia avançada e bom nível de equipamentos por um preço semelhante ao de um carro a combustão mais básico. Isso torna o mercado de usados uma alternativa atraente para quem deseja entrar no universo dos elétricos sem gastar tanto.
O futuro dos carros elétricos no Brasil
O cenário atual mostra que o carro elétrico ainda desvaloriza mais do que os veículos tradicionais, mas isso não é motivo para desespero. Afinal, como o mercado vem mostrando, a tendência é que essa diferença diminua nos próximos anos. Com a evolução da infraestrutura, o fim dos medos infundados, e preços mais acessíveis, a desvalorização de um BEV usado tende a ser cada vez menor e, com isso, o mercado deve se equilibrar.
Além disso, fatores externos como políticas de incentivo, redução de impostos e maior conscientização ambiental podem acelerar essa transformação. Países que já avançaram na adoção dos elétricos mostram que, com o tempo, a desvalorização se estabiliza e o valor de revenda se torna mais competitivo.
Vale a pena apostar em um carro elétrico?
A resposta depende do perfil de cada motorista, mas, independentemente disso, caminha para um “sim” coletivo.
O fator mais importante está na pergunta: “você pode carregar em casa?”. Um sim responde ao maior dos problemas no uso urbano cotidiano, e faz com que a equação do preço tenda a favor dos elétricos, já que o carregamento em eletropostos é muito mais caro. Para quem precisa fazer muitas viagens longas por regiões sem infraestrutura adequada, talvez seja o caso de considerar um híbrido plug-in, que pode funcionar na cidade de forma elétrica.
Apesar dos revezes atuais, um dos maiores indicativos de que a aposta nos elétricos pode compensar são os já citados motoristas de aplicativos, que escolhem por puro cálculo econômico. As desvantagens não estão no carro, mas fora dele -– a já citada infraestrutura. Quando a economia está do lado do elétrico, e a pessoa pode recarregar fácil, não há muito motivo para se apegar ao passado.
Respostas de 2
Isso não é verdade. Depende da métrica.
Existem muitos modelos de carros elétricos caros
Carros a combustão, 80% são “populares”.
Se a métrica é pegar os carros de entrada, a eletricidade desvaloriza menos.
Temos 3 carros de entrada: Dolphin, Mini e agora o EX2
Poderia colocar o ORA 03, mas não tenho certeza.
Se você considerar os carros de entrada, eles desvalorizam muito pouco.
Mas temos uns 30 modelos elétricos…a maioria vai desvalorizar muito mesmo. Mas a grande venda vai se concentrar nesses 3…considerando que a geely traga mais ex2, porque no momento não vendeu tanto por falta de carro.
É um bom ponto. A gente partiu dos números da Webmotors, que confirmavam o “mito”. Estamos estudando mais a fundo.