
Comprar um carro elétrico usado é uma excelente alternativa para quem deseja aderir, mas não tem condições de investir em um modelo 0 km. Os preços dos elétricos novos ainda são elevados no Brasil, mas, por diversas razões, elétricos acabam perdendo em média mais valor de revenda do que os carros a combustão interna.
Crise para um, oportunidade para outro. A desvalorização do carro elétrico pode se tornar uma vantagem para quem compra usado. Modelos seminovos oferecem tecnologia avançada e bom nível de equipamentos por preços próximos aos de carros a combustão mais simples.
Como com qualquer carro usado, é fundamental conhecer os cuidados necessários antes de fechar negócio para evitar dores de cabeça no futuro. A compra de um BEV usado demanda de uma boa dose de atenção, por ser uma tecnologia completamente diferente, e com problemas diferentes de carros convencionais.
Por que comprar um carro elétrico? Quanto você economiza?
Vamos começar pela motivação. Motoristas de aplicativo são testemunhas: pode ser um grande negócio ter um carro elétrico. O Brasil têm uma posição privilegiada de ter eletricidade limpa, abundante e barata. E carros elétricos têm uma vantagem natural por sua simplicidade comparados a carros convencionais.
Dependendo da concessionária local, um carro elétrico gasta na sua conta de eletricidade entre 70% a 80% menos para ser movido do que um carro a combustão interna gastaria no posto para a mesma distância.
Faça sua própria conta: divida o valor do killowatt-hora cobrado pela concessionária (mostrado na conta de luz) pelo total de quilômetros rodados mensais versus os quilômetros rodados por killowatt-hora.
Exemplo: o Dolphin Mini gasta entre 8 a 12,6 kWh por km rodado. Pegando o limite inferior, se você anda 1000 km por mês, teria 1000 / 8 = 125 kWh. Se sua concessionária cobra R$ 1 por kWh na bandeira mais alta, você gastaria R$ 125 por mês para andar com seu carro (isso no pior caso, com consumo máximo). Compare isso com o que você gasta em gasolina ou etanol.
Outro fator de economia é a manutenção. Como o motor e transmissão são muito mais simples, essas partes quase nunca dão defeito. Significa que você deve gastar até 50% menos em manutenção. Se o seu carro convencional precisou de US$ 3 mil em revisões no último ano, calcule por cima R$ 1.500.
Antes de comprar: a pergunta mais importante
Gostou do preço? Não responda ainda, porque falta a grande pergunta. A que todo interessado em comprar um carro elétrico deve se responder:
“Posso carregar em casa?”.
Essa pergunta responde à ansiedade número um das pessoas que pensam em ter carros elétricos. Carregar em casa significa que você não vai depender da infraestrutura local, nem pagar bem mais caro para usar um eletroposto.
E, se você pretende usar seu carro apenas na cidade, pode optar por tê-lo mesmo na falta dessa infraestrutura, porque o carregamento doméstico atende à sua necessidade.
Se a resposta é não, é um caso de avaliar a infraestrutura de recarga e preços na sua cidade. E isso também vale para quem precisa fazer viagens com frequência.
A forma mais simples de testar a infraestrutura é alugar um carro elétrico e tentar fazer os percursos desejados com ele (se você ficar sem bateria, a locadora recolhe o carro).
Você também pode tentar conversar com donos de elétricos de sua região – como motoristas de aplicativo – para ter as dicas de onde carregar. Procure fóruns de pessoas interessadas, como no Reddit, o r/carroseletricos, ou a própria comunidade do evdrops.
Ao comprar: verifique a bateria
A bateria de carro elétrico é o coração do veículo e sua saúde determina tanto a autonomia quanto o valor de revenda.
A reportagem do evdrops conversou com Cassio Pagliarini, executivo da Bright Consulting, que compartilhou dicas para quem pretende comprar um carro elétrico usado com segurança. Segundo Pagliarini, diante do carro, existem duas diferenças básicas que o comprador deve observar com atenção:
- Danos visíveis na bateria: o ideal é colocar o veículo em um elevador e verificar se não houve impactos na parte inferior, onde ficam os módulos da bateria. Qualquer dano pode comprometer a durabilidade e tornar o negócio arriscado.
- Teste de autonomia: é essencial carregar o carro até o máximo e rodar uma distância significativa. Depois, comparar o consumo indicado no painel com a quilometragem percorrida. Se houver discrepâncias grandes, pode ser sinal de desgaste da bateria.
Meça o estado de saúde da bateria (SoH)
Em média, uma bateria dura bem mais do que as pessoas ouvem dizer – possivelmente mais que o próprio carro, nos modelos mais recentes. Mas está sujeita a se desgastar de forma mais ou menos rápida por fatores de uso como fazer carregamento rápido em excesso e expor o carro ao calor. Assim, ao pegar um carro que você não conhece, é importante tentar testar sua bateria.
Essa é uma dica “de luxo”, mas que deve se tornar mais simples e barata conforme os elétricos se popularizam. Há um jeito bem objetivo de saber onde está a bateria do carro, que é medir o seu estado de saúde (SoH, do inglês “state of health”). O SoH de uma bateria é um percentual da carga que ela é capaz de entregar comparado com a carga quando ela era nova: se estiver em 90%, significa que o carro perdeu 10% de sua capacidade original.
O teste de saúde de bateria já é oferecido por concessionárias e por profissionais especializados, fazendo um serviço semelhante à vistoria, com equipamentos especializados. O teste produz um laudo oficial, que talvez o próprio revendedor já tenha – pergunte por ele.
Com o resultado em mãos, você pode ter uma ideia de como o carro foi tratado. Na tabela abaixo, você pode ver os resultados de um estudo no Reino Unido medindo a saúde da bateria em milhares de carros no país.

“Piores casos” são os 25% piores no teste e os “Melhores casos”, dos 25% melhores.
Assim, uma saúde de 90% em um carro com 5 anos indica uma bateria degradada, dentro da média dos piores casos e abaixo da média geral.
Ao comprar: o que mais observar?
Além da bateria e da autonomia, outros fatores devem ser analisados, alguns deles em comum com um carro a combustão interna:
- Histórico de uso e manutenção: verificar se o carro passou por ciclos intensos de recarga ou se foi utilizado em condições severas. Isso pode acelerar o desgaste da bateria.
- Garantia da bateria: muitas montadoras oferecem garantia de até oito anos para a bateria. É importante confirmar se essa cobertura ainda está válida no veículo usado.
- Assistência técnica especializada: checar se há oficinas credenciadas e suporte adequado para manutenção do modelo escolhido.
- Tecnologia embarcada: os carros elétricos evoluem rapidamente. Modelos lançados há poucos anos podem parecer defasados em relação aos mais recentes, que oferecem maior autonomia e sistemas de recarga mais eficientes. Essa percepção de obsolescência pode influenciar tanto o preço quanto a experiência de uso.
O futuro do carro elétrico usado no Brasil
Assim como já ocorre em outros países, o mercado de carros elétricos usados no Brasil tende a crescer nos próximos anos. Com a chegada de novos modelos mais baratos, maior confiança na durabilidade das baterias e expansão da infraestrutura de recarga, a desvalorização deve diminuir. Isso tornará os elétricos cada vez mais competitivos em relação aos veículos a combustão.
Isso significa que a vantagem do “descontão” vista hoje, em parte causada por desinformação do consumidor, deve acabar. Então aproveite enquanto pode.
Com o tempo, políticas públicas de incentivo e maior conscientização ambiental podem acelerar essa transformação. Quem investir em um carro elétrico usado hoje, além de ter a certeza de que irá economizar um bom dinheiro em “abastecimento” e manutenções periódicas, estará preparado e pronto para um futuro em que a mobilidade sustentável será dominante.
Ao seguir este guia e compra com segurança, você pode, como maioria dos compradores de elétricos, entrar para o fã-clube dos satisfeitos – nos EUA, 94% das pessoas que compram carros elétricos afirmaram que comprariam novamente.