
Desde janeiro de 2024, quando anunciou a proibição da importação de veículos movidos a gasolina e diesel, os veículos eletrificados vêm ganhando espaço nas ruas da Etiópia. O país foi o primeiro do mundo a adotar uma política desse tipo, com o objetivo de reduzir os custos de importação de combustíveis fósseis e diminuir a poluição atmosférica.
De acordo com o Ministério dos Transportes e Logística, em 2025 o país já contava com cerca de 100 mil veículos elétricos em circulação, o equivalente a aproximadamente 8,3% dos 1,2 milhão de veículos registrados. O índice coloca a Etiópia na liderança da eletrificação da frota no continente africano, com o Quênia registrando cerca de 0,12% de veículos elétricos, enquanto a África do Sul tem 0,08%, e muito acima da participação da União Europeia, que é de 2% da frota circulante (medido em 2025).
E comparada com o Brasil? Mesmo com a atual aceleração das vendas, o país atualmente possui cerca de 200 mil veículos elétricos circulando (600 mil contando os híbridos). Como a nossa frota total é de 123 milhões de veículos, isso dá 0,16% como elétricos. Assim, proporcionalmente, a Etiópia tem 50 vezes mais carros elétricos circulando que o Brasil.
O número é ainda mais impressionante considerando que metade da população da Etiópia nem tem acesso a energia elétrica.
E o processo está acelerando. Em março deste ano, o Ministério dos Transportes e Logística afirmou que a instabilidade do mercado global de petróleo, agravada pelos conflitos envolvendo o Irã, reforçava a necessidade de acelerar a transição energética e ampliar os incentivos à mobilidade elétrica. Nesse contexto, o governo lançou sua Estratégia Nacional de Mobilidade Elétrica para o período de 2025 a 2030, com o objetivo de acelerar a adoção de veículos elétricos e tornar o sistema de transporte mais sustentável.
Com o lançamento da estratégia nacional de mobilidade elétrica da Etiópia, apresentado no final do mês de maio, o país prevê a expansão da infraestrutura de recarga, o fortalecimento do transporte público elétrico, a integração de energias renováveis e a modernização das normas regulatórias. Segundo o Ministro dos Transportes e Logística, Alemu Sime, o plano também deverá impulsionar a indústria local, com incentivos à montagem de veículos, transferência de tecnologia, atração de investimentos e geração de empregos.
O plano prevê a expansão da infraestrutura de recarga, a integração do transporte público, a atração de investimentos e o fortalecimento da produção local. Também contempla a criação de cadeias produtivas para veículos e baterias, além da capacitação de profissionais. A iniciativa está alinhada às metas climáticas do país e ao avanço da mobilidade elétrica em toda a África.
Addis Abeba encabeça o avanço

Com cerca de 4 milhões de habitantes, a capital etíope, Addis Abeba (às vezes grafada Addis Ababa), concentra grande parte dos veículos elétricos do país. Com trânsito intenso, trajetos relativamente curtos e maior concentração de renda, a cidade reúne condições favoráveis para a adoção dessa tecnologia.
E, em contraste ao resto do país, em Addis Abeba, mais de 90% da população tem acesso à rede elétrica. A cidade também passa por um amplo processo de modernização de sua infraestrutura viária. Ao mesmo tempo, a crescente oferta de veículos elétricos chineses de baixo custo, somada à escassez crônica de combustíveis e à alta dos preços, tem atraído cada vez mais consumidores.
Além de impor elevadas tarifas de importação para veículos com motor a combustão e conceder incentivos fiscais para veículos elétricos e híbridos, a Etiópia pretende instalar 17 fábricas para a produção de veículos elétricos com componentes vindos da China. O foco inclui a expansão do transporte público sustentável, com destaque para o sistema de trens leves totalmente elétrico já em operação na capital.
Obstáculos para o sucesso dos elétricos
A Etiópia possui vantagens importantes para consolidar a mobilidade elétrica, mas também grandes desafios. Conhecida como a “caixa-d’água da África” por suas abundantes chuvas e pela grande quantidade de rios, incluindo as nascentes do Nilo, o país gera mais de 96% de sua eletricidade a partir de fontes hidrelétricas renováveis. A recém-inaugurada Grande Barragem do Renascimento Etíope, com capacidade superior a 5 mil megawatts, deverá mais que dobrar a oferta nacional de energia elétrica.
Outro gargalo é a infraestrutura de recarga. Atualmente, existem cerca de 500 estações de carregamento em todo o país, a maioria localizada em Addis Abeba. Para um governo que pretende eletrificar serviços de táxi compartilhado e micro-ônibus, será fundamental ampliar o acesso à energia elétrica e reduzir as frequentes interrupções no fornecimento, que ainda afetam milhões de pessoas.
A acessibilidade financeira também representa um desafio. Embora os veículos elétricos contem com benefícios tributários, o acesso ao crédito e ao financiamento ainda é limitado para grande parte da população.
Historicamente, a Etiópia apresenta uma das menores taxas de motorização do continente. Em 2016, havia apenas 6,7 veículos para cada mil habitantes, número muito inferior à média africana, de 72,7 veículos por mil habitantes. Dez anos depois, com 138 milhões de habitantes e 1,2 milhão de veículos, a taxa está em 8,7 veículos por mil habitantes.
A baixa adoção inicial acaba sendo um fator que influencia a proporção de elétricos ser tão alta: a motorização se populariza no país já na forma elétrica.
Via: Ministério dos Transportes da Etiópia e Energy for Growth
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