Linha de produção de carros
Linha de produção | Getty Images

É um fato amplamente divulgado (e vez e outra abusado) que carros elétricos possuem mais emissões de CO₂ para serem produzidos do que modelos a combustão interna. Isso acontece porque criar baterias é um processo muito intensivo em energia, e os locais onde essas baterias são criadas (como a China) geralmente têm uma matriz elétrica suja.

Considerando esse fato, faria então sentido continuar usando um carro a combustão interna, que gerou menos emissões ao ser criado, no lugar de trocar por um elétrico? Um estudo da Universidade da Califórnia, Santa Cruz buscou responder a essa pergunta, e a resposta é áspera: o ideal é abandonar o carro a combustão no primeiro ano e mandá-lo para o ferro-velho.

Segundo os cientistas, esse foi um resultado contraintuitivo, porque eles esperavam que fosse fazer sentido manter o carro a combustão por algum tempo.

“De certa forma, acredito que este é um estudo definitivo sobre os benefícios dos EVs em emissões de carbono, porque ele mostra que mesmo num cenário extremo, um EV é ainda assim o vencedor óbvio”, afirma o professor Eliott Campbell, o autor principal do estudo. “Então se alguém está querendo decidir em pôr ou não dinheiro em manter seu carro a combustão funcionando, mudar para um EV o mais cedo que seja financeiramente viável é absolutamente a coisa mais certa a se fazer pelo ambiente.”

O que o estudo diz

Para o estudo, foram considerados 400 modelos de carros elétricos e a combustão interna disponíveis nos EUA, com uma vida útil simulada em 16 anos. Foram rodadas simulações em múltiplos cenários de fabricação, uso e matriz energética, com um usuário trocando seu carro a combustão por um elétrico em algum ponto de sua vida útil.

O resultado foi que o melhor cenário possível era quando o carro a combustão era trocado e retirado de circulação já no primeiro ano. Isso atingiria uma redução média de 58% nas emissões.

O problema, de acordo com os cientistas, é que a combustão é simplesmente muito pouco eficiente. Assim, mesmo se a matriz for suja, o EV leva a vantagem. “O que acontece é que veículos a gasolina exigem energia demais para operar”, afirma Campbell. “Apenas 20% da energia na gasolina da maioria dos carros a combustão interna é usada para mover o veículo – o resto é perdido como calor. Então isso realmente coloca os motores a combustão interna em uma classe completamente diferente dos EVs quando o assunto é eficiência, e isso leva a uma situação em que você quer abandonar o veículo a combustão interna o mais cedo possível.”

Os cientistas também calcularam quando as emissões totais de um EV se tornam menores que as de um carro a combustão. A média aqui foi três anos.

Mas não foi o caso em todas as situações estudadas. Em 92% dos cenários avaliados, trocar um carro a combustão sempre trazia algum benefício. Mas isso não se aplicaria com uma mistura de matriz suja com uso extremamente baixo dos carros a combustão: 7.054 km anuais para carros compactos ou 6.837 km anuais para SUVs. Híbridos plug-in, se operados com eletricidade, também podem ser um caso em que a troca não tem um resultado positivo.

No que isso importa para o Brasil

O estudo foi feito nos Estados Unidos, considerando as diferentes matrizes energéticas regionais do país. É um lugar onde 60% da geração de eletricidade é de origem fóssil. O Brasil é um caso radical, no qual cerca de 90% da geração vem de fontes renováveis. O que leva a uma situação em que elétricos são radicalmente melhores.

Essa foi a conclusão de um estudo do ICCT (Conselho Internacional do Transporte Limpo) comparando diversos países. Usar um BEV aqui significa emitir 87% a menos do que usar um carro a combustão interna (já considerando que é flex), e menos da metade do que nos EUA.

Outra questão do Brasil é a distribuição das nossas emissões de gases-estufa. Enquanto nos EUA o maior emissor é justamente o transporte, por aqui o cenário é outro: é a mudança de uso de terras (desmatamento) a maior causa de emissões, seguida pela agricultura, e só então energia e transportes.

É onde os biocombustíveis, que emitem 70% menos carbono em seu uso, podem se tornar, na verdade, vilões. A área agrícola do Brasil não é infinita. Segundo um estudo do Instituto Ar, para usar uma conversão de 100% de biodiesel, seria necessário ocupar 25% do território nacional apenas com plantações. Plantar uma coisa em um lugar significa não usar a terra para a outra, e a fronteira agrícola é pressionada para invadir a Amazônia quando a terra é usada para gerar combustíveis.

E, como o estudo dos EUA demonstrou com usinas de carvão, carros a combustão são muito ineficientes: faríamos melhor negócio simplesmente usando biocombustíveis em termelétricas do que em carros.

Via Universidade da Califórnia, Santa Cruz