Ontem à noite, a Tesla cumpriu sua promessa: realizou uma demonstração pública e revelou dados de seu novo Roadster, como um “carro voador”. E fez isso com bastante espetáculo.

Em uma das demonstrações, fazendo uso de propulsores de gás comprimido (nitrogênio), o Roadster “decola” e salta sobre outros modelos da Tesla.

Em outra, ele percorre um meio loop e pousa suavemente com a ajuda de seus propulsores.

Os testes foram não tripulados. Os “foguetes”, assim como os tanques (vasos de pressão com revestimento compósito, ou COPV na sigla em inglês) são da SpaceX. Consistem em propulsores de gás frio, que normalmente são usados para manobrar veículos no espaço, mas não como sua propulsão primária.

A Tesla afirma que irá oferecer o novo Roadster em três configurações:

  1. Performance: com dois motores, tração traseira e 1.359 cv; conta com um sistema de sucção sob o carro para prendê-lo ao solo, permitindo maior aceleração e estabilidade em curvas. É capaz de fazer de 0 a 100 km/h em 1,6 segundo.
  2. Thrust: conta com propulsores a gás na traseira para fazê-lo chegar de 0 a 100 km/h em 0,81 segundo.
  3. Rocket: supostamente o carro voador usado na exibição. Possui múltiplos propulsores que permitem a ele fazer as manobras vistas acima. A própria Tesla admite, em seu site, que seu uso não seria legalizado em estradas.

O que há para se desconfiar?

A primeira dúvida de todas é se qualquer versão do carro será entregue. A imprensa internacional já descobriu que o contrato de reserva não dá nenhuma garantia se e quando o modelo será realmente lançado. O CEO da Tesla não é exatamente famoso por cumprir suas promessas extravagantes, e o próprio Roadster, prometido inicialmente para 2017, é um exemplo disso.

A versão “rocket” é uma fantasia. Não se trata de um carro voador – uma ideia que já foi tentada múltiplas vezes sem sucesso. E, mesmo assim, está mais para um carro saltador que voador. Também não está claro quanto tempo duraria a brincadeira até os tanques com 600 litros de nitrogênio se esvaziarem – mas sabemos que levam até seis horas para serem recarregados. Se algum exemplar for entregue, pode ser um brinquedo de bilionário, ou talvez uma atração em eventos.

A versão Thrust é mais plausível, ainda que igualmente não deva poder ser usada nas ruas. Mesmo se fosse liberado rodar sem usar o propulsor, seria uma versão menos prática do carro, com o peso e o espaço ocupados pelos tanques – desta vez menores, com 200 litros.

E a versão Performance é onde está o carro de verdade. Aqui talvez a Tesla tenha alguns trunfos interessantes.

O que existe de verdade no Tesla Roadster?

Como somos jornalistas cri-cris sem senso de diversão, o que mais chamou a atenção no teste não foi quando o Roadster “voou”, mas quando deu o meio loop de cabeça para baixo. Porque isso é uma tecnologia real, que já tem algumas décadas, e nem foi a Tesla que inventou: atualmente, outro supercarro elétrico, o McMurtry Spéirling, já fez uma longa demonstração de cabeça para baixo.

Essa tecnologia consiste em uma espécie de hovercraft reverso, no qual, no lugar de bombear ar para baixo do veículo para fazê-lo flutuar, o ar é sugado. Isso “gruda” o carro no chão e permite uma aceleração extrema, superando o limite em que as rodas começariam a derrapar. É o que torna plausível o 0 a 100 km/h em 1,6 segundo prometido.

O novo Tesla Roadster, segundo os engenheiros da Tesla, deve pesar no máximo 1.700 kg, ser equipado com uma bateria de íon-lítio com arquitetura entre 800 V e 1.000 V, prometendo carregar de 15% a 80% em menos de 15 minutos (ficando aquém dos chineses nesse critério).

Também real é o design, que não lembra em nada o primeiro Roadster – e sequer é realmente um roadster, que é um conversível de dois lugares. O carro tem também saias laterais e um aerofólio traseiro que são retráteis, assim como os faróis. É um supercarro baixo, que lembra um pouco uma Lamborghini, mas cuja inspiração foi o Lotus Esprit de 1977 usado no filme James Bond: O Espião Que Me Amava, e se transformava em um submarino em certo momento. Esse exato carro do filme (apelidado de Wet Nellie) foi adquirido em um leilão por Elon Musk em 2013 e levado à Tesla para servir de inspiração aos engenheiros.

Dessa vez, a obsessão do CEO por ficção parece ter funcionado. O design parece estar agradando mais que o Cybertruck, e certamente mais que a Ferrari Luce.

O lançamento causou um pequeno pico nas ações da Tesla (que, no momento em que esta matéria é escrita, já esfriou). Entre a primeira demonstração do Cybertruck e seu lançamento efetivo, se passaram 4 anos. Mas, para quem quiser confiar, as reservas ficam em US$ 50 mil para a versão Performance e US$ 250 mil para a Thrust. A Rocket só será oferecida para convidados especiais.

Via Tesla