Ferrari Luce, visão frontal
Frente | Ferrari / Divulgação

Questionado pela rede de TV americana CNBC a respeito da controvérsia da Ferrari Luce, o CEO da rival Lamborghini, Stephan Winkelmann, se recusou a falar do carro diretamente, mas abordou o tema de forma quase óbvia. Na conversa, ele reforçou a decisão de sua marca de desistir de um carro puramente elétrico, que se chamaria Lanzador.

“Olhando o mercado, nós vimos que a curva de aceitação para nosso tipo de consumidor não está aumentando”, afirmou, “e assim decidimos nos afastar de um carro elétrico puro para um híbrido plug-in. Nossa decisão de sair para o plug-in foi muito importante para nós, e funcionou. Não falamos sobre nossos competidores… mas todo mundo tem sua estratégia.”

Ainda que Winkelmann tenha, coerentemente, se recusado a falar da Ferrari Luce, seus comentários deixam claras suas opiniões sobre o tema. “Inovação é crucial parar o sucesso”, afirmou, adicionando que inovação não pode ser feita pela inovação em si ou forçada nos consumidores.

Stephen Winkelmann, CEO da Lamborghini
Stephan Winkelmann, CEO da Lamborghini | Lamborghini / Divulgação

Winkelmann já havia dito anteriormente, ao cancelar o projeto elétrico da Lamborghini, que a demanda por elétricos puros no segmento é “perto de zero”. Mas ele apontou não para combustão pura como opção, mas híbridos plug-in, que já existem na forma do Urus e do Revuelto.

Especialistas ouvidos pela CNBC concordaram com a análise do CEO. Michael Field, estrategista da consultoria Morningstar, assim afirmou: “No fim das contas, muitos fãs estão desapontados com a Ferrari abraçando o conceito de EVs, acreditando que isso diluiu a marca de supercarros, que moldou a si própria em torno do design clássico e força bruta de motores a combustão.”

Ainda que a gente aqui tenha sido “do contra” e elogiado a Ferrari Luce, parece que essa opinião é definitivamente minoritária. Para dizer o mínimo: as ações da empresa caíram 8% logo após o anúncio e, até o momento em que esta matéria é escrita, não se recuperaram. O ex-presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, chegou a sair da aposentadoria para dizer que a marca deveria arrancar o cavalo do carro.

Nosso take

A má recepção não parece se dever ao fato de a Ferrari Luce ser um carro elétrico, mas de sua linguagem de design se desviar completamente da tradição da marca – e lembrar algo que a Apple teria feito. Um de seus designers principais, afinal, foi Jony Ive, que foi chefe de design da maçã na época do lançamento do iPod, iPhone e iMac.

Carros elétricos podem ter qualquer formato. Supercarros elétricos chineses como o Yangwang U9, o Nio EP9 e o Hongqi S9 têm mais “cara de Ferrari” do que a Luce. De fato, é de se admirar que a Ferrari tenha ousado quebrar a linguagem visual do que é um supercarro, na criação da qual ela própria foi possivelmente a maior influência de todas.

Talvez o CEO da Lamborghini tenha razão e, ao menos entre consumidores ocidentais de supercarros, o mercado queira mesmo barulho e fumaça. A prova não virá da Internet, mas se a Luce será o mesmo desastre em vendas que está sendo em opinião pública.

Parece implausível agora, mas quem sabe a Ferrari acabe vindicada com o tempo e a Luce se saia mesmo um Apple Car, mudando para sempre o conceito de design dos superesportivos. O que pode acontecer inclusive se as vendas forem ruins e ele virar “cult”.

Via CNBC