Uma Ferrari Luce azul
Luce, em sua glória | Ferrari / Divulgação

Quando eu dei a notícia do lançamento da Ferrari Luce, o primeiro modelo elétrico da mítica marca italiana, falei em uma “concessão ao mundano”. Por isso quis dizer: atender aos interesses de consumidores comuns. Comparamos com o Purosangue, o SUV da Ferrari, que não atende exatamente ao mesmo público que compraria um cupê de dois lugares como os que tornaram a marca o que é.

Como previmos, a Internet explodiu com o lançamento. Muitos comentários foram mais ou menos na linha do que eu disse: que não parece uma Ferrari, que não tem espírito de Ferrari. A maioria foi que, taxativamente, é feio.

E eu também comecei por um choque, por um “Isto não é uma Ferrari”. Mas depois, observando melhor o carro por si só, fica claro que feio ele não é. E então pensei: se um fabricante como a Xiaomi apresentasse o mesmo modelo (e, bem… a 1/10 do preço), todo mundo estaria achando genial.

Olhe a imagem abaixo e mentalize isso: pense que é um carro de luxo chinês.

Ferrari Luce, visão geral
Luce | Ferrari / Divulgação

Nada mal, né? E aí resolvi por lado a lado da Luce o que a Xiaomi realmente faz. Este é o maior maior trunfo da marca, que a alçou imediatamente de um fabricante de eletroeletrônicos para uma força no setor automotivo, o SU7:

Xiaomi SU7 2026
SU7 2026 | Xiaomi / Divulgação

Parece mais uma Ferrari que a Luce parece, não?

Outro exemplo, o BYD Yangwang U9, o carro mais rápido do mundo:

Yangwang U9 Xtreme bate recorde de pista no circuito Nürburgring
Yangwang U9 Xtreme bate recorde de pista no circuito Nürburgring / Divulgação: BYD

Novamente: mais “uma Ferarri” que a última Ferrari, não é?

E aí que me deu o estalo: não foi a Xiaomi ou a BYD que criou a Luce. Foi a Ferrari. Foi preciso a Ferrari para imaginar um supercarro elétrico que não pareça uma… bem, uma Ferrari.

A ousadia de não ser “Ferrari”

E é exatamente por isso que a Luce é um projeto genial. Com ela, a Ferrari reescreve o que um supercarro elétrico deve parecer, enquanto mesmo os fabricantes especializados em elétricos ainda buscam atender a um molde estabelecido – pela Ferrari.

A marca parece ter notado que um carro elétrico e um carro a combustão interna não são realmente o mesmo produto. Uma evidência dessa mentalidade é que, diante da reclamação de fãs de supercarros da ausência de ruído em carros elétricos, no lugar de fazer como outros fabricantes e colocar um som de motor a combustão, ela amplificou o som natural dos motores elétricos do carro, “como uma guitarra”.

Segundo o designer chefe da Ferrari, Flavio Manzoni, em entrevista à jornalista Cleo Abram, o que eles fizeram foi “partir de uma abordagem tecnológica e daí criar algo que se materializa”. Na conversa, que fala muito em quebrar expectativas e ousar como outros fabricantes não podem, foi dito que a Luce foi criada para ser algo que só poderia existir com a tecnologia elétrica.

Carros a combustão e elétricos são tecnologias diferentes atendendo à mesma necessidade. Querer que a Ferrari elétrica pareça com Ferrari a combustão é como achar que um aspirador robótico deva parecer com um aspirador de mão.

Assim, a Ferrari recriou a própria ideia de carro para fazer seu primeiro carro elétrico. E tudo faz sentido: é um sedã porque os motores ficam nas rodas, não na traseira, precisa de espaço para suas portentosas baterias no assoalho, e porque o sedã é a forma ideal para um carro elétrico. Sua forma de gota, com um teto de vidro em forma de bolha, com uma asa frontal nunca antes vista, sinaliza para a maximização da aerodinâmica, porque a resistência do ar é o maior inimigo de um carro elétrico.

O que a Ferrari Luce evitou de ser

Compare a concepção da Ferrari com a ideia de quebra com o passado da Jaguar, igualmente controversa, o Type 01:

Jaguar Type 00 é oficialmente apresentado, confira as primeiras impressões
Jaguar Type 00 é oficialmente apresentado, confira as primeiras impressões / Divulgação

É um carro exótico, mas reconhecivelmente um “carrão”, com um imenso capô para um motor que não está lá.

E agora compare com um post viral dizendo que “consertou a Luce com IA”:

Meme do Reddit mudando a Luce em IA para parecer mais normal

Agora ela parece mais com… qualquer Ferrari, né? Quem teria se surpreendido com um modelo assim? Seria só mais um modelo, não o carro que redefine o futuro da marca.

E talvez até mesmo redefina o futuro do design de carros elétricos – ao menos os esportivos. Alguns compararam o modelo com o engavetado projeto do Apple Car e suas imagens “vazadas”, dizendo que é tecnológico demais. E talvez tenha saído isso mesmo: um iPhone dos supercarros. Como isso poderia ser uma crítica? O iPhone iniciou uma era.

A Ferrari pode ficar com meu chapéu. Em outra vida, estaria vendendo meu segundo iate para investir numa Luce.