
A moda é cíclica, não é segredo. Se até há pouco o estilo de carroceria era visto como coisa de sisudos senhores (para não dizer aquela palavra começada com T), agora começa a ser visto como uma tendência inovadora, em oposição ao longo reinado dos SUVs. O sedã está voltando a ser moda.
Essa é a opinião de analistas de mercado ouvidos pelo Detroit Free Press – são tendências, assim, que começam nos EUA, o país onde atualmente 60% dos carros novos são SUVs, e mais 15% são caminhonetes.
Por que sedãs?
Uma das razões é o preço: nos EUA, segundo dados da consultoria Cox Automotive, um SUV custa em média US$ 50.380 (~R$ 250 mil), versus US$ 34.069 (~R$ 170 mil) de um sedã. A segunda é a economia: sedãs fazem, em média, 10 milhas (16 km) a mais por galão (3,79 l) de combustível que um SUV.
E, a terceira, é a já citada moda: SUVs dominaram por tanto tempo que se tornaram o carro de papai e mamãe, sendo rejeitados por jovens. Um estudo pela consultoria Escalent questionou 1.000 adolescentes entre 14 e 19 anos quais eram os carros que eles se viam guiando no futuro. 51% falam em sedãs, 31% em SUVs, e 14% em caminhonetes.
“Eu acredito que existe o que eu chamo de um cansaço dos SUVs que todo mundo está experimentando, de consumidores a designers automotivos a agências de aluguel” afirma Karl Brauer, analista executivo do iSeeCars, para o DFP. “Existe um grupo de pessoas buscando não parecer como todo mundo. Um sedã oferece isso – o que é engraçado, porque eles eram considerados entediantes e agora são cool.”
Ainda segundo a análise das fontes ouvidas pela DFP, quanto mais eletrificada ficar a frota, mais sedãs serão produzidos. “Uma coisa que as fabricantes têm ouvido mais de compradores e distribuidores é que precisam de um mix melhor e mais carros acessíveis”, afirma Sean Tucker, do site de vendas Kelley Blue Book. “Acredito que iremos ver um certo retorno dos sedãs e vai acelerar mais em um futuro mais distante quando a América se tornar elétrica em um maior grau.”
A relação entre eletrificação e sedãs é porque plataformas elétricas costumam ser modulares, permitindo múltiplos estilos de carroceria serem produzidos sobre uma mesma base. Assim, as montadoras têm mais flexibilidade para diversificarem sem se arriscar muito.
Outra razão para investir em sedãs é a possibilidade de que, caso a oposição conquiste novamente a presidência dos EUA, sejam impostas leis pelas quais SUVs sejam classificados como carros – e não utilitários, razão porque pagam impostos menores do que deveriam, e a causa principal de sua explosão a partir dos anos 2010.
Além de Detroit
Alguns fatores ficaram fora da análise do DFP, mas são mencionados por outras fontes do setor como um impulso para a renascença do formato. Sedãs combinam mais com eletrificação porque são mais aerodinâmicos que SUVs (e hatches). Eles, afinal, se aproximam da forma aerodinâmica ideal, que é uma gota. O formato sedã é o que permite a um monstro como o Yangwang U7, com 1.287 cv, consumir como um SUV médio.
Em carros a combustão, ser um sedã pode se traduzir no menor consumo já citado. Mas em elétricos o menor consumo significa também maior alcance, um dos fatores mais cruciais para convencer o consumidor a fazer a troca.
E um dos maiores criadores de tendência hoje, mesmo nos EUA, é um sedã: o Xiaomi SU7, um modelo poderoso chinês que já fez o CEO da Ford, Jim Farley, dizer que teve uma “revelação chocante” ao perceber que simplesmente não queria mais largar do carro que sua empresa adquiriu para estudar. Recentemente, Farley mencionou explicitamente que um sedã é uma das apostas da nova plataforma da Ford.
E no Brasil?
O Brasil tem uma mania de SUVs quase tão forte quanto a dos EUA. Dados da Fenabrave indicam que 56,92% dos veículos emplacados no Brasil em abril foram SUVs. Aqui, diferente de lá, os hatches são relevantes, com 25,41% do mercado. Sedãs caíram desde o último ano, marcando 10,16% agora versus 14,81% em abril passado.
A tendência pode acabar chegando aqui – principalmente se a Xiaomi ou a Tesla finalmente desembarcarem. Mas, por enquanto, dá para dizer que ela inexiste: o sedã elétrico mais vendido é o BYD Seal, que, segundo dados da ABVE, marcou quase traço, 74 unidades emplacadas em abril, contra as 6.880 do Dolphin Mini.
Deixe um comentário