Carregadores da Volvo com um carro volvo
Carregador | Volvo Cars / Divulgação

A Volvo Cars do Brasil anunciou ontem que sua rede de carregamento entra em um “novo momento”: o de começar a cobrar pelo serviço, mesmo de proprietários de carros da marca.

Desde 2022, proprietários de veículos Volvo contavam com recarga gratuita na rede da fabricante. Até julho de 2024, inclusive, qualquer pessoa contava com recarga gratuita, independente da marca de seu carro. Agora, a partir de 15 de junho, os donos de Volvos passarão a pagar o mesmo que qualquer cliente: R$ 2,90 por cada kWh de recarga rápida, ou R$ 2 por lenta.

Por esse preço, custaria cerca de R$ 200 para uma recarga completa dos 69 kWh da bateria do EX30 – um preço salgado mesmo para eletropostos, e cerca de 3 vezes o valor de uma recarga caseira na maioria das cidades brasileiras.

Atualmente, a rede de eletropostos da Volvo tem 75 carregadores pelo país, com 140 conectores, no que a empresa considera ser uma cobertura de 31 mil quilômetros de rodovias.

Preço acima do mercado

Não é mistério que uma decisão assim não agradou. O evdrops ouviu alguns proprietários de Volvos sobre o que acharam da mudança.

O advogado Marcus Machado (47), de Matupá (MT), diz que entende as razões, mas irá parar de usar os postos da rede.

“Não discordo da cobrança”, afirma. “Mas irão colocar um valor acima do mercado. Aqui no Mato Grosso, o mais caro que temos é R$ 2,50. Então, além de não existir mais vantagem para clientes Volvo, que serão tratados como clientes de outras marcas, o preço proposto é acima do preço de mercado. Eu particularmente não usarei mais os eletropostos Volvo.”

Marcus, que é dono de um XC40, afirma que costumava fazer viagens entre Matupá e Cuiabá, e que carregava no eletroposto a cerca de 200 km de sua saída.

Sequência de más notícias

“Apesar de ser natural essa ‘evolução’, começou gratuito para todos, em seguida gratuito para clientes Volvo e agora todos pagam“, afirma o arquiteto urbanista, Rogério Markievicz (61), proprietário de um EX30.

Rogério Markievicz, presidente da ABRAVEi, em frente ao seu Volvo EX30
Rogério Markievicz, presidente da ABRAVEi, em frente ao seu Volvo EX30 | Arquivo pessoal

Rogério é presidente da ABRAVEi (Associação Brasileira de Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores). Ele faz uma análise de como isso afeta a marca como um todo.

“Vemos uma rejeição muito grande no momento, que é parte de uma sequência de notícias ruins para o cliente Volvo, principalmente para os proprietários de EX30: o recall do EX30 sem, até hoje, previsão de troca das baterias para a maioria. O limite de carregamento máximo de 70% da bateria, impossibilitando viagens, ou, no mínimo, de utilizar o carro de maneira tranquila (ou natural). E agora pagar para recarregar.”

“A percepção geral dos grupos de [discussão de donos de] Volvo”, continua, “é que a a Volvo estava tendo a oportunidade de criar novos consumidores fiéis, que não conheciam a marca, e, iniciando pelo EX30, não está tendo o costumeiro cuidado de atendimento.”

Segundo Rogério, a ABRAVEi acompanha de perto esses problemas experimentados pelos clientes da Volvo e vê com “muita preocupação” o recall e a demora no atendimento.

Sobre o tema da matéria, assim ele descreve a posição de sua organização: “A questão da rede de recarga Volvo foi uma opção da empresa oferecer, por tempo determinado, para atrair compradores. Temos que aplaudir a iniciativa pois ajudou a consolidar várias eletrovias, possibilitando viagens de carros elétricos, até então muito difícil. Mas, entendemos a frustração do cliente Volvo quando, de surpresa e logo antes do período de férias/viagens, é retirado o benefício. O cliente Volvo, sempre muito bem atendido, está neste momento com a sensação de abandono.”

E deixa um alerta para a marca, que foi uma das pioneiras em eletrificação no Brasil: “No cenário atual, com muitas opções de carros e marcas, vemos nos grupos [de clientes da Volvo] várias manifestações de que a Volvo está perdendo espaço junto aos clientes”.

Cliente entende o lado da empresa

Destoando de Rogério e Marcus, o engenheiro eletricista Ivan Martinez (53), que é dono de um XC40 P6, entende o lado da Volvo.

“Eu tenho meus problemas com algumas coisas que a Volvo faz, mas cobrar a recarga acho que está muito certo”, afirma. “Sou só usuário/cliente e nunca concordei com não cobrarem. Acho bom cobrarem pois agora quem sabe cuidam mais dos eletropostos. Recarga de graça foi verba de marketing que a empresa gastou.”

Ele comenta sobre outros usuários e a campanha inicial da marca: “Vi gente no grupo de proprietários dizendo que vai vender o carro só pela cobrança da recarga! O povo não quer perder vantagem que teve. Essas pessoas não consideram quantas outras [empresas] não investiram nada em recarga e que nenhuma empresa que vende carro a combustão oferece combustível grátis e nem tem rede de postos.”

NOTA: O evdrops tem uma parceria estratégica (não financeira) com a ABRAVEi, e a associação nos ajudou a encontrar clientes interessados em conversar para esta matéria.