
O Scotiabank rebaixou suas previsões para as ações das grandes locadoras do Brasil – Localiza, Unidas e Movida. O documento, ao qual o evdrops teve acesso, cita dados da consultoria Indicata Brasil, que apontam para futuras dificuldades para essas empresas, advindas da rápida reconfiguração no setor automotivo brasileiro causada pela chegada dos chineses
“As marcas chinesas estão mudando os pontos de referência por todos os segmentos que elas tocam, e cada novo lançamento delas acelerou a depreciação de carros usados”, afirma o Scotiabank. “As frotas de aluguel estão no nível de entrada e, enquanto os chineses ainda não têm um produto, tratamos isso como uma questão de quando, não se.”
“É uma tempestade perfeita para as locadoras”, afirma Lúcio Groch, chefe de vendas da Indicataas Brasil. “A gente já tem um produto extremamente comoditizado, com margens apertadas, e uma concorrência muito grande. É uma indústria muito difícil de ter saúde financeira.”
O valor dos usados, que está sendo afetado pela entrada dos chineses, é fundamental para os negócios de locadoras. “Quando uma locadora aluga um carro, os valores são ancorados em valores residuais futuros para esses carros”, continua Groch. Valor residual é o que sobra de um investimento – no caso o carro – após sua vida útil, representado pelo valor de revenda do seminovo de locadora.
E esse valor já está se tornando menor hoje. “O que diminui o resdidual é a guerra dos preços dos carros novos hoje, uma briga iniciada pelos chineses, que chegam tanto com mais tecnologia quanto com um produto que tem mais apelo ao cliente final, e num valor muito agressivo.”
Análise: o dilema das locadoras
E, com isso, as locadoras têm um baita dilema em mãos. Ele é visível todos os meses nos dados de vendas de veículos leves no Brasil. Há basicamente um abismo entre as preferências nas vendas diretas – que acontecem principalmente para pessoas jurídicas, metade das quais sendo locadoras – e o varejo, que representa consumidores pessoa física.
Abaixo, a lista dos 15 veículos leves mais vendidos da primeira quinzena de agosto, segundo a Bright Consulting. No total geral, os elétricos vão aparecer na quarta e quinta posição:
| Modelo | Diretas | Varejo | Total |
|---|---|---|---|
| FIAT Strada | 3379 | 2062 | 5441 |
| HYUNDAI Creta | 1919 | 1842 | 3761 |
| VW Polo | 2031 | 1517 | 3548 |
| BYD Dolphin | 322 | 3139 | 3461 |
| BYD Dolphin Mini | 874 | 2347 | 3221 |
| VW Tera | 977 | 1883 | 2860 |
| FIAT Toro | 1338 | 1348 | 2686 |
| VW T Cross | 1430 | 1095 | 2525 |
| GEELY EX2 | 139 | 2193 | 2332 |
| HYUNDAI I20 | 1600 | 658 | 2258 |
| FIAT Fastback | 847 | 1406 | 2253 |
| TOYOTA Yaris Cross | 558 | 1673 | 2231 |
| VW Saveiro | 2163 | 67 | 2230 |
| FIAT Argo | 1262 | 935 | 2197 |
| GWM Haval H6 | 451 | 1727 | 2178 |
Compare com mesma lista organizada por vendas no varejo. Elétricos ocupam as primeiras posições:
| Modelo | Diretas | Varejo | Total |
|---|---|---|---|
| BYD Dolphin | 322 | 3139 | 3461 |
| BYD Dolphin Mini | 874 | 2347 | 3221 |
| GEELY EX2 | 139 | 2193 | 2332 |
| FIAT Strada | 3379 | 2062 | 5441 |
| VW Tera | 977 | 1883 | 2860 |
| HYUNDAI Creta | 1919 | 1842 | 3761 |
| GWM Haval H6 | 451 | 1727 | 2178 |
| TOYOTA Yaris Cross | 558 | 1673 | 2231 |
| VW Polo | 2031 | 1517 | 3548 |
| FIAT Fastback | 847 | 1406 | 2253 |
| FIAT Toro | 1338 | 1348 | 2686 |
| VW T Cross | 1430 | 1095 | 2525 |
| FIAT Argo | 1262 | 935 | 2197 |
| HYUNDAI I20 | 1600 | 658 | 2258 |
| VW Saveiro | 2163 | 67 | 2230 |
E por vendas diretas. Elétricos vão para o final da lista.
| Modelo | Diretas | Varejo | Total |
|---|---|---|---|
| FIAT Strada | 3379 | 2062 | 5441 |
| VW Saveiro | 2163 | 67 | 2230 |
| VW Polo | 2031 | 1517 | 3548 |
| HYUNDAI Creta | 1919 | 1842 | 3761 |
| HYUNDAI I20 | 1600 | 658 | 2258 |
| VW T Cross | 1430 | 1095 | 2525 |
| FIAT Toro | 1338 | 1348 | 2686 |
| FIAT Argo | 1262 | 935 | 2197 |
| VW Tera | 977 | 1883 | 2860 |
| BYD Dolphin Mini | 874 | 2347 | 3221 |
| FIAT Fastback | 847 | 1406 | 2253 |
| TOYOTA Yaris Cross | 558 | 1673 | 2231 |
| GWM Haval H6 | 451 | 1727 | 2178 |
| BYD Dolphin | 322 | 3139 | 3461 |
| GEELY EX2 | 139 | 2193 | 2332 |
Essa discrepância é uma situação nova. Historicamente, os carros que as locadoras compravam eram mais ou menos os mesmos que os consumidores finais queriam. No mínimo, tinham a mesma tecnologia. Mas hoje, os carros favoritos do consumidor não estão mais representados nas compras de locadoras.
E isso significa duas coisas: eles não serão vendidos por locadoras como seminovos no futuro, pressionando seus preços para cima, e as locadoras não os terão para oferecer aos consumidores – jogando para baixo os preços de seu inventário a combustão interna.
Como escapar disso então? Deveriam elas só comprar eletrificados?
Aí que está: as compras atuais não são uma decisão irracional por parte das locadoras. Porque o que está acontecendo agora com a combustão interna já foi visto justamente com elétricos.
“Essas três grandes locadoras – Localiza, Movida e Unidas…”, explica Groch, “Todas tentaram colocar um pouco de carro elétrico na frota. E isso se mostrou uma má ideia então. Sua experiência com elétricos foi muito ruim até 2 anos atrás. Porque havia uma lentidão na recarga e uma expectativa do consumidor chegar para retirar o veículo e ele não estar totalmente recarregado. Esses veículos foram comprados em baixas quantidades, se mostraram pouco atraentes para a locação de curto prazo, e seu residual foi menor do que as locadoras esperavam.”
Um problema insolúvel?
Esse dilema pode bem se mostrar insolúvel. A Localiza recentemente anunciou a compra de 10 mil carros da BYD ao longo de dois anos – mas é um balde d’água no oceano diante dos 200 mil veículos que ela compra por ano. A maioria dos elétricos se destina a locação de longo prazo, na qual as pessoas se importam mais com essas economias.
Não é impossível que estejamos em uma situação em que o que as locadoras querem e o que consumidor quer não mais coincidem. Pessoas que compram um carro elétrico aceitam a inconveniência de carregar por conta de suas grandes economias em médio prazo. Pessoas que alugam um carro em curto prazo só querem algo para ir de um lugar a outro, e nisso a combustão interna (mas nada impede que sejam híbridos plug-in) ainda é o mais conveniente, dadas as deficiências de infraestrutura. Isso força as locadoras a insistir neles – talvez pudessem adotar híbridos plug-in.
É improvável que as locadoras simplesmente não consigam vender seus estoques comprados agora. Não deve ser em dois anos que carros a combustão novos terão desaparecido, à maneira da Noruega. A Indicata aponta que a situação do Brasil não é a mesma da Europa, mencionando os combustíveis flex, e seu domínio de mais de 80% do mercado.
Não significa que eles irão sair por um preço viável para as locadoras.
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