Imagem mostra pessoa dentro do carro segurando celular com imagem de um carro (Foto: Divulgação | Audi)

Imagine comprar um carro elétrico hoje e, daqui a alguns meses, receber uma atualização capaz de melhorar a autonomia, otimizar o carregamento da bateria ou adicionar novas funções de assistência ao motorista. Essa é uma das principais propostas dos chamados carros definidos por software, conhecidos pela sigla SDV (Software-Defined Vehicle).

A ideia é simples: o veículo deixa de ser um produto totalmente pronto no momento da compra e passa a evoluir ao longo da sua vida útil por meio de atualizações digitais.

Nos carros elétricos, essa mudança ganha ainda mais importância. Como a bateria, os motores elétricos, a regeneração de energia e diversos sistemas de controle já dependem de softwares avançados, a capacidade de aprimorar o funcionamento do veículo por programação se torna um diferencial cada vez mais importante.

O que é um carro definido por software, ou SDV?

Um carro definido por software é aquele em que diversas funções do veículo são controladas e aprimoradas por sistemas digitais. Em vez de depender exclusivamente de componentes físicos para receber melhorias, o automóvel pode evoluir por meio de atualizações de software.

Na prática, isso significa que o mesmo carro elétrico comprado hoje pode apresentar recursos diferentes no futuro.

Uma atualização pode melhorar a forma como a bateria é gerenciada, aperfeiçoar a estimativa de autonomia, ajustar sistemas de assistência ao motorista ou corrigir falhas sem que o proprietário precise substituir peças.

A tecnologia segue uma lógica parecida com a dos smartphones. Um celular comprado há alguns anos continua recebendo novos recursos porque seu sistema operacional é atualizado. Nos carros elétricos, a proposta é levar esse conceito para um produto muito mais complexo.

A organização SOAFEE (Scalable Open Architecture for Embedded Edge), criada com participação de empresas como Arm, Bosch, Continental, AWS e Qualcomm, trabalha justamente no desenvolvimento de arquiteturas abertas para veículos definidos por software. O objetivo é permitir que diferentes sistemas do automóvel possam ser atualizados e integrados de maneira mais eficiente.

Por que carros elétricos são perfeitos para SDVs?

Embora um veículo a combustão também possa utilizar softwares avançados, os carros elétricos têm uma relação muito mais próxima com essa tecnologia.

Isso acontece porque praticamente todos os sistemas fundamentais de um BEV dependem de processamento eletrônico.

A bateria precisa de um sistema de gerenciamento, conhecido como BMS (Battery Management System), que monitora temperatura, carga, descarga e segurança das células. O motor elétrico depende de controladores eletrônicos para entregar potência de forma eficiente. A frenagem regenerativa precisa calcular quanto de energia pode ser recuperada em diferentes situações. Tudo isso passa por software.

Por esse motivo, pequenas melhorias na programação podem alterar a experiência de condução. Uma atualização pode tornar o gerenciamento térmico mais eficiente, melhorar o aproveitamento da energia armazenada ou aperfeiçoar o funcionamento dos sistemas eletrônicos.

Isso não significa que uma atualização aumenta fisicamente o tamanho da bateria. O ganho está em usar melhor a energia disponível.

Atualização OTA: o recurso que mudou a relação entre carro e fabricante

Essa característica explica por que empresas que nasceram com foco em veículos elétricos, como Tesla, Rivian e diversas fabricantes chinesas, adotaram rapidamente esse modelo, assim como gigantes já consolidadas, como é o caso da alemã Audi.

Uma das tecnologias mais associadas aos SDVs é a atualização remota, conhecida como OTA (Over-the-Air).

Ela permite que o veículo receba novos softwares utilizando uma conexão de internet, sem que o proprietário precise levar o carro até uma concessionária.

Nos carros elétricos, esse recurso pode ser utilizado para diferentes finalidades. Uma fabricante pode corrigir um problema, melhorar a eficiência energética ou adicionar funções ao sistema do veículo.

A Tesla foi uma das empresas que mais ajudou a popularizar esse conceito. Ao longo dos anos, seus modelos receberam diversas atualizações remotas, mostrando ao mercado que um automóvel poderia continuar evoluindo depois da compra.

Atualmente, outras fabricantes de veículos elétricos também seguem esse caminho. Audi, BYD, Volvo, Mercedes-Benz, Volkswagen, Nio, XPeng e Zeekr estão investindo em plataformas digitais capazes de oferecer maior integração entre hardware e software.

Mas existe uma diferença importante: ter atualização OTA não significa automaticamente ser um SDV.

Muitos veículos tradicionais conseguem atualizar mapas ou sistemas multimídia pela internet. Um carro definido por software vai além. A arquitetura do veículo é desenvolvida para permitir que o software tenha papel central no funcionamento do automóvel.

O que muda para quem compra um carro elétrico?

Para o consumidor, a principal mudança está na expectativa de vida do veículo.

Durante décadas, comprar um carro significava adquirir um produto com praticamente todas as suas características definidas. Melhorias importantes normalmente chegavam apenas quando uma nova geração era lançada.

Nos carros elétricos definidos por software, essa lógica começa a mudar.

O proprietário pode receber melhorias sem trocar de veículo. A autonomia estimada pode ficar mais precisa. O gerenciamento da bateria pode ser aperfeiçoado. Sistemas de condução assistida podem evoluir.

Esse modelo também muda a forma como as fabricantes enxergam o ciclo de vida do automóvel. O relacionamento com o consumidor deixa de terminar no momento da venda e passa a continuar durante os anos seguintes.

Para quem compra um BEV, isso representa uma vantagem importante: o carro pode permanecer atualizado por mais tempo.

O software pode melhorar a autonomia de um carro elétrico?

A autonomia é uma das maiores preocupações de quem pensa em comprar um veículo elétrico. Por isso, o papel do software nesse ponto chama tanta atenção.

O alcance de um BEV depende de vários fatores, como capacidade da bateria, eficiência do motor elétrico, aerodinâmica, temperatura externa, estilo de condução e gerenciamento eletrônico.

O software atua justamente na coordenação desses elementos.

Por meio de algoritmos mais eficientes, uma fabricante pode melhorar a forma como o veículo utiliza energia, controlar melhor a temperatura da bateria e otimizar o funcionamento dos sistemas elétricos.

Esse tipo de evolução é especialmente importante porque a eficiência passou a ser um dos grandes diferenciais dos carros elétricos. Enquanto nos veículos tradicionais boa parte da evolução está ligada ao motor, nos BEVs o software se tornou uma peça fundamental para extrair o máximo desempenho da tecnologia disponível.

Os EVs podem ganhar funções novas se forem SDV?

Uma das maiores mudanças trazidas pelos carros definidos por software é a possibilidade de o veículo continuar evoluindo mesmo depois de chegar às mãos do consumidor.

Esse conceito altera uma característica tradicional da indústria automotiva. Durante décadas, melhorias importantes dependiam de uma nova geração do modelo ou da troca de componentes físicos. Com os SDVs, parte dessa evolução pode acontecer por meio de atualizações digitais.

Na prática, um carro elétrico comprado hoje pode receber aprimoramentos no futuro. Uma fabricante pode atualizar o sistema de gerenciamento da bateria, melhorar a lógica da frenagem regenerativa ou aperfeiçoar sistemas de assistência ao motorista.

A diferença é que essas melhorias não dependem necessariamente de uma mudança mecânica.

Esse modelo também abre espaço para que fabricantes desenvolvam novas funções após o lançamento do veículo. A Mercedes-Benz, por exemplo, trabalha com a plataforma MB.OS, um sistema operacional próprio criado para integrar diferentes funções dos seus futuros veículos.

A Volvo é outra montadora gigante no mesmo caminho. A marca sueca segue uma estratégia semelhante com a arquitetura Superset Tech Stack, desenvolvida para criar uma base tecnológica comum aos próximos veículos da marca, incluindo modelos elétricos.

SDV não significa que o carro depende apenas de software

Apesar de toda a evolução digital, o conceito de carro definido por software não elimina a importância dos componentes físicos.

A bateria continua sendo um dos principais elementos de um veículo elétrico. A capacidade de armazenamento, a química das células e a eficiência dos motores continuam determinando grande parte do desempenho.

O software funciona como uma camada de inteligência responsável por administrar esses componentes.

Um exemplo simples está no gerenciamento térmico da bateria. Temperaturas muito baixas ou muito altas podem afetar o desempenho e a velocidade de recarga. O sistema eletrônico monitora essas condições e ajusta o funcionamento do veículo para preservar eficiência e segurança.

Outro exemplo está na frenagem regenerativa. O software calcula quanto de energia pode ser recuperado durante uma desaceleração, equilibrando eficiência, conforto e comportamento do veículo.

Por isso, quando se fala em SDV, a ideia não é substituir a engenharia tradicional. É fazer com que hardware e software trabalhem de forma mais integrada.

Principais desafios dos carros definidos por software

Apesar das vantagens, os SDVs também trazem novos desafios para a indústria.

O principal deles envolve segurança digital. Quanto mais sistemas do veículo dependem de software e conexão com a internet, maior é a necessidade de proteção contra falhas e ataques cibernéticos.

Essa preocupação levou a Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) a criar regras específicas para o setor automotivo.

O regulamento UN R155 estabelece requisitos de gerenciamento de cibersegurança nos veículos. Já o UN R156 trata justamente do gerenciamento de atualizações de software.

Outro desafio está relacionado ao suporte de longo prazo. Assim como acontece com smartphones e computadores, os veículos precisarão receber atualizações durante vários anos para manter recursos e segurança.

Para o consumidor, isso significa que a escolha de uma marca poderá envolver não apenas autonomia da bateria ou desempenho, mas também a capacidade da empresa de manter o veículo atualizado.

Por que os carros definidos por software devem ganhar espaço nos elétricos?

A indústria automotiva está passando por uma mudança de conceito. Nos carros elétricos, a bateria deixou de ser o único grande diferencial. A forma como o veículo administra essa energia passou a ter importância semelhante.

É por isso que o software se tornou uma das áreas mais disputadas entre fabricantes.

Empresas tradicionais investem em novas arquiteturas eletrônicas, enquanto fabricantes que nasceram no mercado de veículos elétricos já desenvolvem seus modelos com essa lógica desde o início.

A consultoria McKinsey aponta que o software terá participação crescente no valor dos veículos nos próximos anos, com impacto direto em áreas como conectividade, assistência à condução e experiência do usuário.

Para o consumidor de carros elétricos, essa transformação significa uma mudança importante na relação com o automóvel. O veículo deixa de ser apenas um conjunto de peças e passa a funcionar como uma plataforma tecnológica capaz de evoluir com o tempo.

Futuro dos carros elétricos passa pelo software

Os carros definidos por software ainda estão em fase de expansão, mas a direção da indústria parece clara. Os próximos elétricos serão cada vez mais conectados, inteligentes e capazes de receber melhorias depois da compra.

Essa evolução ajuda a explicar por que as fabricantes estão investindo tanto em plataformas digitais próprias. A disputa pelo consumidor de veículos elétricos não acontece apenas pela maior bateria ou pelo carregamento mais rápido. Ela também envolve quem consegue oferecer a melhor experiência digital durante toda a vida útil do veículo.

Para quem pretende comprar um BEV nos próximos anos, entender o conceito de SDV será cada vez mais importante. Assim como hoje o consumidor compara autonomia, potência e tempo de recarga, o software tende a se tornar mais um critério decisivo na escolha de um carro elétrico.

O “carro do futuro” não será apenas elétrico ou definido pelo que ele entrega no dia da compra, mas também pelo quanto ele ainda poderá evoluir depois dela, incorporando tecnologias, otimizando sistemas já existentes e, principalmente, se tornando cada vez mais um aliado do motorista que busca cada vez mais prazer e perfeição ao dirigir.