
Um novo relatório global divulgado pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) acendeu o alerta para a urgência da transição rumo à mobilidade elétrica. Segundo o estudo intitulado “Benefícios para a Saúde do Transporte com Zero Emissões até 2050“, as emissões do transporte rodoviário são responsáveis por causar uma morte prematura a cada 45 segundos e desencadear um novo caso de asma infantil a cada 2 minutos em todo o mundo.
O levantamento traz um contraste severo entre dois caminhos possíveis para as próximas décadas: se mantivermos o ritmo atual, o crescimento populacional e o aumento das frotas farão as mortes dispararem. Contudo, uma guinada ambiciosa rumo aos veículos elétricos e híbridos pode reescrever esse futuro.
“O que este estudo demonstra é que a eletrificação ambiciosa é forte o suficiente para romper esse ciclo, evitando que quase 9 milhões de vidas sejam interrompidas prematuramente entre agora e 2050”, afirmou Josh Miller, diretor sênior do ICCT e coautor do estudo.
O peso do transporte na saúde pública
Apenas em 2024, a poluição gerada pelo ecossistema rodoviário contribuiu para cerca de 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma pediátrica no planeta. O setor é apontado como o grande vilão da qualidade do ar urbano.
O transporte rodoviário responde por quase metade do limite anual recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a exposição a partículas finas no ar exterior. Além disso, analisado pela primeira vez em um estudo global de saúde do ICCT, o dióxido de nitrogênio veicular representa 20% da exposição global desse gás, sendo que as mortes atribuídas a ele somam 37% do total de óbitos do setor.
Pesados e frotas antigas
O estudo destaca que o foco da eletrificação não deve ser apenas nos automóveis de passeio. Os veículos pesados, como caminhões e ônibus, embora representem menos de 5% da frota global, foram responsáveis por 60% das emissões de óxidos de nitrogênio.
Outro fator crítico são as frotas antigas. Os veículos não controlados, que são aqueles anteriores às normas Euro 1 ou equivalentes, somam apenas 8% do uso global, mas expelem quase metade de toda a poeira fina que respiramos no mundo.
Dois futuros distintos
O ICCT projetou dois cenários possíveis para os próximos 25 anos, evidenciando como a velocidade da adoção de veículos elétricos impactará diretamente a sobrevivência humana.
No primeiro cenário, chamado de Cenário Base, mantêm-se as políticas atuais. Caso o mercado continue nessa trajetória, a estimativa é de que as mortes prematuras anuais causadas pela poluição do transporte aumentem 74% até 2050. Isso significa que o ritmo de óbitos se agravaria de uma morte a cada 45 segundos para uma a cada 26 segundos, impulsionado pelo crescimento da frota em países em desenvolvimento e pelo envelhecimento da população. Os casos de asma infantil também continuariam em uma escalada preocupante.
No segundo cenário, o de Eletrificação Ambiciosa, assume-se um compromisso global em que quase a totalidade das vendas de novos veículos seja de emissão zero até 2045. Nessa realidade, as mortes prematuras caem 63% e os novos casos de asma pediátrica reduzem-se em 80% em relação aos níveis de 2024. No total acumulado entre 2024 e 2050, essa transição rápida salvaria exatamente 8,8 milhões de vidas e impediria que 1,7 milhão de crianças desenvolvessem asma.
Desigualdade global em saúde
Um dos pontos mais sensíveis tocados pela pesquisadora principal do relatório, Lingzhi Jin, é o abismo social provocado pela poluição. Sob as políticas atuais, a desigualdade em saúde tende a aumentar consideravelmente.
Enquanto os países de alta renda colhem os frutos da modernização de suas frotas, projetando uma redução de 48% nas mortes prematuras até 2050, os países de renda média-alta enfrentarão um aumento de mais de 50% nesses óbitos. O cenário é ainda mais dramático para as nações de baixa e média-baixa renda, que correm o risco de registrar aumentos superiores a 200% na mortalidade por poluição.
Adotar uma eletrificação acelerada e global é a única ferramenta capaz de reduzir drasticamente essa disparidade, garantindo que países de todos os níveis de rendimento alcancem reduções substanciais e democráticas na poluição do ar.
Estados Unidos lideram casos
Mesmo sendo uma economia de alta renda, os EUA lideram negativamente o ranking de asma infantil ligada ao trânsito: 1 em cada 10 novos casos no mundo ocorre em solo americano. Em 2024, foram mais de 41.800 mortes prematuras e 23.100 novos casos de asma pediátrica no país devido à poluição veicular.
Se os EUA acelerarem o passo para atingir 100% de participação de mercado de elétricos para carros, caminhões e ônibus até 2040, o país evitaria sozinho 100 mil mortes prematuras e impediria que 42 mil crianças desenvolvessem asma até 2050.
No segmento de carga pesada, a mudança se mostra inclusive vantajosa do ponto de vista financeiro. Análises anteriores do ICCT indicam que o custo inicial mais alto de um caminhão elétrico de médio ou grande porte é totalmente recuperado em um período de 1 a 10 anos de uso, graças à economia massiva com combustível diesel e despesas de manutenção.
Transição além da bateria
Embora a eletrificação acelerada seja o motor principal para salvar vidas a longo prazo, o relatório conclui que os governos precisam agir imediatamente com ações complementares enquanto a infraestrutura de recarga avança pelo mundo.
Para garantir benefícios imediatos à saúde pública, os especialistas sugerem que os países adotem e cumpram padrões de emissão avançados para os motores a combustão remanescentes, incentivem o uso de combustíveis mais limpos e implementem programas rígidos de renovação de frotas e reciclagem de veículos antigos, além de criar zonas de baixa emissão nos grandes centros urbanos.
A mensagem do ecossistema de transporte limpo é clara: a eletrificação automotiva deixou de ser apenas uma meta de descarbonização corporativa para se tornar uma intervenção de emergência na saúde global.
Via: The ICCT
Deixe um comentário