
A consultoria Carbon Tracker acaba de publicar seu estudo chamado Trucking Tipping Point – Why The Truck EV Transition is Closer Than Expected (“O Ponto de Virada dos Caminhões – Por Que a Transição para EVs em Caminhões Está Mais Próxima do que Esperado”). No documento, ela defende que a rápida mudança do mercado na China antecipa o que deve acontecer em outros países do mundo e, com isso, os modelos usados por consultorias do mercado de capitais, que preveem que o transporte pesado será um bastião da resistência de combustão interna, estão incorretos.
“Evidências vindas da China”, afirma o relatório, “estão ativamente desmontando esse mito, demonstrando que veículos elétricos a bateria (BEVs) para o transporte comercial estarão chegando antes que o modelo que é consenso está projetando, posicionando o transporte pesado como a próxima grande disrupção no transporte rodoviário”.
Questão puramente econômica
Segundo a Carbon Tracker, essa transição é puramente movida por questões econômicas, não por ideologia, compliance ou a ação de órgãos reguladores. Simplesmente existe um ponto em que o custo total de propriedade (TCO) de um modelo a combustão passa a superar o de um elétrico, tornando adquirir um elétrico a decisão mais sensata na ponta da caneta.
Na China, segundo a Carbon Tracker, o TCO já virou a favor dos elétricos antes de 2025. Com isso, a evolução da transição fez a chamada “curva em S”, acelerando de forma exponencial – ainda que não tenha chegado ao seu ápice. Em 2021, 1% dos caminhões na China era formado por BEVs. Hoje são 30%.
O processo, afirma o estudo, se dá em três partes:
- Conforme a produção mundial aumenta, aumenta também a eficiência, diminuindo os custos de aquisição;
- A adoção começa por frotas regionais e urbanas de alta utilização, nas quais os custos por quilômetro rodado começam a apresentar vantagens sobre o diesel;
- O ponto de virada decisivo ocorre quando o custo total da vida útil, combinando o custo da compra, manutenção, energia e infraestrutura de carregamento, se torna mais barato para um caminhão elétrico do que para um equivalente a diesel.
A partir disso, a curva do S começa, levando à substituição total dos modelos a combustão em veículos novos.

A Carbon Tracker calcula que esse ponto de virada deva chegar no máximo em 2030 na Europa e nos EUA. Em algum momento da década de 2030, há a virada mundial, com os elétricos a bateria superando a combustão em caminhões. Na China, chega-se em 2040 com zero vendas de caminhões a combustão interna. E, em 2050, os modelos a combustão interna estão basicamente extintos nas vendas de novos.
Quando o Brasil cruza o ponto?
Como isso afeta o Brasil? O mercado aqui está menos que engatinhando: ainda é uma célula esperando se dividir. Segundo a Fenabrave, foram 15 caminhões elétricos, de 11.192, vendidos em julho. Os chineses estão cravando sua bandeira: esse mínimo de vendas veio só de chineses, salvo dois da Volkswagen e um da Tesla. A Sany, um dos maiores players mundiais mencionados no relatório, já prometeu nacionalizar sua produção.
Esse domínio chinês indica que o nosso TCO (e aí seria preciso um estudo nacional para responder com certeza) possa estar mais para o lado chinês do que para o americano ou o europeu.
Em carros, há a percepção de que o número já pode ter virado. Há uma certa incógnita sobre o residual – o preço de venda após o fim de sua posse pelo dono. Consultorias como a Indicata consideram que a situação atual, na qual os elétricos mais desejados (os de entrada) estão desvalorizando menos que modelos a combustão interna, não irá se manter, porque a evolução da tecnologia tende a defasá-los mais que carros que não evoluem quase nada (a combustão interna).
Mas, com os veículos gastando até 80% a menos para rodar que com combustíveis, e 50% a menos de manutenção, o TCO já está do lado dos elétricos no mínimo para aplicações de uso pesado, como para motoristas de aplicativos.
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