
A combustão interna não tem futuro. Tem uma sobrevida.
Sim, a eletrificação é um processo em estágio inicial, ao menos no Brasil. E, sim, há muitas coisas que podem dar errado no caminho. Tem um país inteiro dando errado no caminho.
Há muito dinheiro investido em toda a cadeia produtiva da combustão interna. Não estamos aqui para vilanizar ninguém ou sermos cruéis: é perfeitamente compreensível que as pessoas nesse ramo tentem fazer o máximo para manter vivo o seu negócio. É particularmente severa a situação dos produtores de autopeças que, diferentemente das montadoras, que podem se eletrificar, e dos produtores rurais, que podem vender para o transporte aéreo e naval, não terão opção após a eletrificação substituir motores de 3 mil peças por máquinas de 20 peças.
E também é compreensível que as pessoas nessa área tendam a dizer, retoricamente ou por wishful thinking, que há um futuro para sua indústria. E então surge o discurso que já mudou algumas vezes.
Um caminho único
Primeiro, a conversa era que o Brasil não precisa de elétricos porque tem etanol. Depois, o discurso mudou e passou a dizer que o Brasil só teria espaço para híbridos. Agora, fala-se em convivência tecnológica, contra um “caminho único”.
Enquanto esse discurso busca se manter tentando emular a linguagem da diversidade humana, ele não tem sustentação. Para que houvesse dois caminhos, seria preciso que ambos tivessem razões de ser. Que um não fizesse tudo o que o outro faz, mas melhor.
Acontece que a razão de ser da combustão interna é provisória. Não mantemos a combustão interna porque há algo que ela faça melhor. Ela existe como um tapa-buracos enquanto falta infraestrutura de carregamento. É como continuar usando cavalos porque ainda não há postos de gasolina suficientes.
Curiosidade histórica, a propósito: cavalos eram uma visão comum nas cidades brasileiras até os anos 1950, quando a indústria automotiva nacional começou para valer e estradas de rodagem (isto é, infraestrutura) foram criadas.
Mesmo com um atraso considerável, o futuro da criação de cavalos e da indústria de selas, arreios e ferraduras já estava definido. Essa indústria foi extinta completamente, nem do dia para a noite, mas se tornou um nada em comparação ao que já foi. Basicamente um hobby.
Sobre carros e TVs
A combustão interna também não irá desaparecer amanhã ou depois. Definitivamente, com uma das frotas mais antigas do mundo, terá ainda vários anos de uso mesmo depois de extinta em carros novos. Pegue o exemplo da Noruega, que vende quase 100% de elétricos hoje, ainda possui 67% (dois terços) de carros a combustão interna em sua frota circulante.
É hora de dar nome aos bois aqui: há uma transição tecnológica. Falar em convivência é ilusão. Não é o caso de duas tecnologias convivendo porque há razão para isso.
Pegue, por exemplo, o caso de aviões a jato e a hélice. Os aviões a hélice vieram primeiro e foram superados em seus usos principais, mas continuaram a existir porque são muito mais econômicos em trajetos curtos.
Carros a combustão, em contraste, não são mais econômicos. De fato, são tão pouco econômicos que, mesmo com os elétricos sendo consideravelmente mais caros (mesmo os chineses), acabam compensando a diferença no custo de combustível e manutenção. Também não são mais potentes e poluem o ar não só com emissões de gases-estufa, mas localmente, com óxidos de nitrogênio (NOx) causando doenças respiratórias potencialmente letais.
A única vantagem que dá para se falar é que carros a combustão são mais leves, mas isso não é o suficiente para justificar sua continuidade. Talvez para andar sobre lagos congelados.
A comparação mais próxima, assim, é entre TVs de CRT e as TVs digitais de alta definição. As primeiras tiveram alguns anos ainda depois da introdução das últimas, porque eram mais baratas e compatíveis com o sinal analógico ainda em vigor. Mas não porque havia qualquer vantagem intrínseca nelas. Houve uma sucessão tecnológica. Um caminho único.
(P.S.: aliás, como no caso dos cavalos, até existe uma pequena vantagem em TVs de CRT: elas são usadas para ver videogames antigos e fitas de VHS no formato para que foram pensados, porque a tela digital acaba danificando seriamente a imagem em baixa resolução. Como no caso dos cavalos, o que já foi indústria se tornou um hobby.)
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