Foto de um homem olhando para um carro num pátio com muitos carros
Vendedores precisam de treinamento | Getty Images

Especialistas do setor automotivo alertam que revendedores de veículos usados ainda cometem erros significativos ao vender carros elétricos. De acordo com lojistas ouvidos em um artigo da publicação britânica Car Dealer Magazine, o maior problema não é necessariamente o carro, mas a falta de conhecimento de quem está tentando vendê-lo.

Estes são os erros mais comuns dos vendedores de usados

1. Falta de conhecimento de mercado

Segundo Richard Norris, fundador da rede de revendas Drive Green, “Existe a sensação de que os vendedores podem simplesmente se juntar ao barco e começar a vender EVs com lucro e com sucesso, já que eles são populares no momento”.

Norris afirma que empresas precisam se planejar porque há uma pressão grande sobre a margem de lucro.

No Reino Unido, EVs usados são muito baratos, pressionando a margem para baixo. A situação aqui no Brasil é um pouco diferente: os modelos mais procurados desvalorizam menos que carros a combustão, mas modelos de luxo de fato perdem valor.

2. Esquecer de mencionar a economia

Estelle Miller, cofundadora da EV Experts, mencionou também a falta de conhecimento dos revendedores levando-os a esquecer de mencionar o que talvez seja o ponto mais forte dos elétricos: a economia. “Primeiramente eu diria que o motorista médio no Reino Unido que poderia carregar em casa não percebe o tipo de economias em combustível e manutenção que se pode ter usando um EV.”

Miller traz cifras do Reino Unido, onde, segundo ela, é possível usar um elétrico por um décimo do valor por quilômetro rodado de um carro a combustão. Aqui no Brasil, a energia não é tão barata em relação aos combustíveis: a cifra é um quinto. Ainda assim, esse é provavelmente o ponto mais importante na atual adoção dos elétricos no país.

3. Ter má vontade com manutenção

Isto é algo que acomete mais vendedores e gerentes em concessionárias – e vale mesmo para as marcas chinesas, porque todas vendem também no mínimo híbridos. Existe a ideia de que carros elétricos não têm manutenção nenhuma e isso leva a alguns vendedores a tentar empurrar um modelo a combustão no lugar.

Elétricos de fato gastam em média 50% a menos em manutenção, mas eles precisam ter revisões periódicas como qualquer carro. E os clientes precisam ser informados, porque falhar nessas revisões pode levar a problemas, como por exemplo falhas na refrigeração da bateria.

4. Não prover teste de bateria

Testes de estado de saúde da bateria existem já no Brasil e são algo fundamental para vender um elétrico usado. A bateria é basicamente o coração do carro, e a parte que mais pode causar problemas por desgaste – ainda que bem menos do que as pessoas leigas acreditam. Testar a bateria é dar uma segurança ao consumidor sobre que ele está comprando, e uma revenda que queira vender elétricos precisa providenciar alguma maneira de prover esses testes.

5. Não obter conhecimento técnico

Além da economia em combustível e bateria, o vendedor precisa estar familiarizado com características específicas de um carro elétrico, para não ficar sem ter o que responder ao consumidor melhor informado.

Algumas partes fundamentais: entender o que faz um carro elétrico gastar mais bateria, entender o que é a capacidade da bateria, suas diferentes tecnologias, e a importância da velocidade de carregamento.

Um vendedor também precisa estar preparado para responder aos mitos mais comuns, como que as baterias se deterioram rapidamente e o carro se tornará inútil em poucos anos, ou que se incendeiam fácil, ou que são de qualquer maneira menos potentes.

Revendedores que trabalham com elétricos recomendam que os lojistas tenham contato direto com esse tipo de veículo. Dirigir um elétrico, entender como funciona a recarga, quanto custa aproximadamente o seguro e conhecer suas diferenças em relação a um carro convencional permite responder perguntas que dificilmente seriam esclarecidas apenas com uma ficha técnica.

“O que falta à maioria dos revendedores é conhecimento. A melhor maneira de contornar isso é possuir e aprender. Para aquelas pessoas que não querem mudar, tudo bem. Fiquem com a combustão”, comentou Richard Symonds, proprietário da R Symonds Ltd, revendedora britânica especializada em carros usados.

As mesmas dificuldades aparecem no Brasil

As recomendações fazem ainda mais sentido no Brasil. Uma pesquisa divulgada em 2026 pela EY, empresa de auditoria e consultoria, mostrou que 54% dos brasileiros que desistiram de comprar um carro elétrico apontaram a falta de infraestrutura de recarga como um dos motivos. A preocupação com autonomia e a dificuldade de encontrar pontos de carregamento continuam sendo obstáculos importantes para a decisão de compra.

No fim, a lição dos revendedores britânicos vale praticamente da mesma forma por aqui: vender um elétrico usado exige conhecer o carro e saber explicar a experiência de propriedade. Em um mercado no qual mais da metade dos desistentes ainda aponta a infraestrutura de recarga como problema, informação pode ser tão importante quanto o preço.

Via Car Dealer Magazine