
Ao fazer análises que envolvem política – como prever como um mandato de Flávio Bolsonaro pode afetar a eletrificação – lembramos várias vezes que, ao que tudo indica, no Brasil carro elétrico não é coisa nem de direita nem de esquerda.
Isso é muito diferente da situação nos Estados Unidos, onde há uma politização do tema e carro elétrico é visto como coisa de esquerdista – com um presidente basicamente antieletrificação (e antiambientalista). Por aqui, um grupo com fama de conservador se revelou a vanguarda da eletrificação: os motoristas de aplicativo.
Agora, um estudo do Instituto Locomotiva corrobora essa percepção: de fato, as opiniões políticas dos motoristas de carros elétricos brasileiros não parecem ter qualquer influência no que eles desejam do governo em termos de eletrificação. Todos querem incentivos.
A pesquisa, realizada entre 1 e 10 de julho deste ano, consistiu em 1.300 entrevistas digitais, 1.000 delas com um grupo geral de motoristas e 300 com apenas donos de carros elétricos (BEVs).
Qual é a posição política dos donos de carros elétricos?
A primeira descoberta interessante do estudo é o próprio posicionamento político dos donos de veículos elétricos no Brasil. Segundo os dados das pesquisa do Instituto Locomotiva, ele se divide da seguinte forma:
| Posicionamento | Donos de EVs | Brasil |
|---|---|---|
| Esquerda | 33,50% | 39% |
| Centro | 29,10% | 17% |
| Direita | 37,40% | 44% |
Os números na coluna da direita, trazendo a posição política da população brasileira como um todo, vêm de uma pesquisa DataFolha realizada em julho.
É possível ver que, na verdade, há menos esquerdistas entre os donos de elétricos, mas também menos direitistas. A vantagem da direita em relação à esquerda é de quatro pontos percentuais, e isso praticamente espelha os cinco pontos de diferença na população em geral. O centro, que é bem menos representativo na população brasileira como um todo, acaba sendo bem maior entre os donos de EVs, e quase tão importante quanto as outras duas posições.
No gráfico abaixo, é possível comparar esses dados visualmente:

O que os motoristas brasileiros querem
As primeiras duas perguntas gerais são parecidas. Em uma delas, o Locomotiva perguntou:
Propostas para tornar carros elétricos mais acessíveis podem influenciar meu voto em um candidato nas próximas eleições
Ao que 37% dos motoristas afirmaram concordar totalmente, 28% concordaram parcialmente, 10% discordaram totalmente e 7% discordaram parcialmente. No total, 65% concordam e apenas 17% discordam.
Outra pergunta foi:
Eu prefiro votar em um candidato que incentive o uso de carros elétricos
Aqui, 30% dos respondentes concordaram totalmente, 29% concordaram parcialmente, 8% discordaram totalmente e 6% discordaram parcialmente. O total fica em 59% concordando e 14% discordando.
Como a ideologia (não) influencia as opiniões
A seguir, temos três perguntas divididas por ideologia. Uma delas é:
O Governo deveria investir em incentivos para trazer mais montadoras de carros elétricos e aumentar a concorrência, protegendo os cidadãos da alta do Petróleo

É de se imaginar que esse intervencionismo afastaria os conservadores? Seria imaginar errado: 90% dos direitistas concordaram com a afirmação, enquanto os esquerdistas marcaram 93%. Os centristas também foram de “sim”: 91%.
Como a margem de erro é de 5,2 pontos percentuais, temos um empate entre as três posições.
Mais uma pergunta para testar o não intervencionismo dos motoristas brasileiros:
O Governo deveria investir mais em infraestrutura para carros elétricos (como pontos de recarga)

Temos aqui mais um empate técnico, com 88% dos direitistas concordando, 87% dos esquerdistas, e 84% dos centristas.
E, por fim, a pergunta (por um motivo que nos escapa) menos popular:
Você considera que quanto mais veículos elétricos houver nas ruas, melhor será a qualidade de vida nas cidades?

E, surpresa, outro empate. Mas o consenso é menor: 79% dos esquerdistas, 79% dos direitistas e 74% dos centristas dizem que concordam com a afirmação.
Nosso take
Parece que o não intervencionismo econômico, em tese defendido por liberais e conservadores, é só da boca para fora no Brasil. Talvez posições políticas por aqui tenham mais a ver com costumes e valores, se são igualitários ou hierárquicos. No mínimo é assim quando é uma questão que envolve o indivíduo diretamente.
Mas é bom ver a confirmação definitiva de que a polarização não atinge carros elétricos. Se há alguma conclusão a tirar dos números, é que eles inclusive os proprietários de carros elétricos são mais moderados que a média da população. Com isso, quem quer que esteja em Brasília no futuro terá pressão de seus eleitores para no mínimo não ignorar a eletrificação.
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