
Saiu nos veículos de cobertura automotiva geral: fabricantes tradicionais estão dando grandes descontos em carros a combustão interna. Fabricantes como Volkswagen, Mitsubishi e Fiat (além das chinesas Caoa Changan e GWM) deram descontos de até R$ 55 mil em carros zero. O preço médio dos carros no Brasil caiu R$ 5,5 mil.
Será que está acontecendo – muito antes do que qualquer um ousaria prever – um crash da combustão interna? Algo característico de uma transição tecnológica, na qual o produto anterior perde seu valor aos olhos do consumidor – como as TVs de CRT nos anos 2010, com a chegada das TVs digitais.
Conversamos (novamente) com Lúcio Groch, chefe de vendas da filial brasileira da consultoria internacional Indicata, para avaliar a questão. Ele acha que faz sentido falar em transição tecnológica, mas também tem uma advertência sobre o valor futuro dos elétricos que estão causando essa pressão agora e que, no momento, são os veículos seminovos que menos se depreciam.
A novidade que não é tão nova assim
Nossa primeira pergunta: “Tem algo de novo acontecendo?”.
“Sim, está acontecendo algo de novo”, responde Groch. “Ou não exatamente novo, mas um acirramento da guerra de preços e concorrência iniciada há um tempo. É possível contar isso a partir da chegada da BYD no Brasil [em 2021]. A BYD foi a primeira marca a encontrar o ‘fit’ para o Brasil, mostrando que havia um espaço para elétricos e para híbridos, e isso trouxe a reboque várias outras marcas. Quando a gente olha os números através do Indicata, a gente vê que esse acirramento foi muito, muito, muito maior neste ano, a partir de janeiro.”
Para explicar esse acirramento, Groch cita o exemplo do Dolphin Mini, que já chegou a responder sozinho por mais de 60% de todo o mercado de BEVs no Brasil, mas possivelmente irá perder a coroa neste mês para o Geely EX2 e talvez também o Dolphin regular.
“O BYD Dolphin e Dolphin Mini pareciam imbatíveis em preço e market share. No entanto, a guerra de preços chegou inclusive a esse segmento, que parecia tão estabelecido por esses dois modelos. As marcas de volume também reduziram bastante seus preços em função dessa guerra. Desde as marcas líderes, como Fiat, Volkswagen, Renault, assim como a Toyota. Todas as marcas estão nessa guerra.”

Claro é que elétricos são um produto competitivo, mas estamos falando em uma transição tecnológica?
O especialista acredita que sim, mas é mais complexo do que simplesmente a substituição dos carros a combustão: “Sem dúvida [há uma transição], e tanto nos veículos a combustão quanto nos eletrificados. Na parte dos veículos a combustão, a gente tem um uma questão da limitação da tecnologia, que tem um custo por quilômetro muito maior e vai continuar sendo muito maior do que os elétricos e os eletrificados. Esse gap tecnológico vai pesar cada vez mais contra os veículos a combustão. É uma barreira que quase intransponível. Esses carros serão progressivamente menos atraentes. Está acontecendo e vai continuar a acontecer.”
Groch ainda vê algum futuro (não muito glamuroso) para a combustão: “Há um distanciamento tecnológico dos carros a combustão, que vai acabar deixando esses carros na mão daquelas pessoas que são muito avessas a essas novas tecnologias. E esses carros vão ter um valor residual, um valor de revenda, que vai sofrer, mas que vai ficar atrativo para quem quer manter a tradição.”
O ponto de virada dos elétricos
A transição que ocorre nos próprios elétricos é a velocidade com que evoluem. E isso pode eventualmente fazer cair os preços dos modelos que, no momento, estão vendendo como pão quente de manhã. “Essa evolução, deixando o produto [o elétrico de geração anterior] menos atraente conforme o tempo passa, é muito forte nos elétricos. Porque a gente tem uma curva tecnológica que está apenas agora começando a ficar íngreme. Esses produtos terão uma evolução muito grande em muito tempo, e estamos falando especialmente das baterias. Isso vai tornar os veículos seminovos bastante defasados tecnologicamente.”
Segundo o consultor, não necessariamente essa queda será causada por tecnologias mais distantes, como as baterias em estado sólido, mas a evolução contínua. Ele acha que uma barreira psicológica, que ele acredita estar nos 400 km de autonomia (pelo Inmetro), pode ser um ponto de virada forte.
O que quem quer comprar elétricos deve saber?
Significa, então, que se você decidir comprar um Argo hoje seu prejuízo a médio prazo será menor do que se comprar um Dolphin Mini? “Acho muito arriscado fazer uma previsão. A tecnologia vai se mover numa direção que a gente não conhece e os players do mercado vão se mover numa direção que a gente não conhece.”
Mas o que dizer para uma pessoa que quer comprar um elétrico hoje? Ele vai perder dinheiro?
“Tem muitos fatores que entram nessa conta”, responde Lúcio Groch. “Vamos pensar que a gente está falando de uma pessoa que vai e volta do trabalho todos os dias de carro e pega o trânsito de São Paulo ou de outra capital, ou de uma cidade média. Para essa pessoa, se tiver como carregar em casa, a conta é ótima. Porque valor por quilômetro é 25%, 20% do valor do quilômetro de um carro a combustão de entrada. Essa conta é muito boa para essa grande massa de pessoas que rodam 20 km, 30 km por dia e às vezes menos do que isso. Para motoristas de aplicativo, que rodam muito, a conta é ainda melhor. Considerando barreiras que a gente já sabe: dificuldades na hora de viajar, numa viagem acima de 200, 300 km. ”
Quem quiser comprar usado, ainda melhor: “O risco de depreciação seria menor num carro usado ou seminovo, porque ele já está depreciado. Mesmo que haja um impacto forte pelas mudanças da situação de mercado, será um impacto proporcionalmente menor.”
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