A fonte é basicamente um tweet (xíte?) de Elon Musk, mas a notícia não deve ser surpresa para ninguém: aparentemente, a Tesla irá encerrar a produção do Cybertruck.

“A Tesla irá descontinuar [gradualmente] a produção do Cybertruck na Gigafactory Texas por volta da metade do ano que vem para abrir espaço para produção reforçada do Cybercab”, afirma o CEO.

A surpresa é o quanto demorou para a Tesla chegar a essa decisão: desde seu lançamento oficial em novembro de 2023, após quatro anos de espera, o Cybertruck vendeu pouco mais de 70 mil unidades, das quais 39 mil foram no primeiro ano, 20 mil no segundo, e menos de 14 mil neste.

Com uma expectativa inicial de vender 250 mil no primeiro ano, o modelo encalhou tanto que a Tesla começou a vendê-lo para as outras empresas de Elon Musk.

Nosso take: o tecno-feudalismo e os seus descontentes

Montagem com o Cybertruck e uma lixeira
Cybertruck e um objeto não relacionado | Montagem: evdrops

Não vale nem muito a pena comentar tudo o que deu errado com o Cybertruck, desde a tampa frontal mordendo os dedos dos donos até mensagens misteriosas aparecendo na lataria. Tudo sempre cheirou a um projeto de vaidade de Elon Musk, com sua compreensão peculiar de ficção científica dos anos 1980 (na qual ele seria o vilão, mas não tem amigos para avisar disso). O resultado foi um modelo visualmente divisivo e muito pouco prático, para atender a uma ideia intransigente de design.

O que é interessante de notar é o quanto não só o visual é retrô: pelo preço que é cobrado, entre US$ 82.490 e US$ 102.490 (~R$ 454 mil a ~R$ 565 mil), o Cybertruck segue uma filosofia de design que está em queda, que a de carros elétricos como objetos de luxo.

Um caminho que foi iniciado pela própria Tesla com o Roadster original – e é preciso reconhecer o mérito dela em ter tornado carros elétricos um objeto do desejo, abrindo espaço para a sua adoção em massa após múltiplas tentativas fracassadas – inclusive no Brasil. Mas que não representa o momento atual da indústria, com os chineses finalmente fazendo com que carros elétricos possam competir e vencer os modelos a combustão no preço (se não no preço inicial, no custo total de uso).

E a outra parte que merece comentário é o substituto proposto por Elon Musk. O Cybercab é uma aposta altamente especulativa da Tesla, ao lado dos robôs humanoides Optimus. Ainda que Musk pareça tratar a produção de carros para o consumidor quase com desdém, como algo que ficou no passado, nenhum dos dois é um produto viável no momento.

A Waymo tem mais dez anos de vantagem sobre a Tesla em desenvolver táxis robóticos e ainda assim opera em apenas 15 cidades nos EUA, no que ainda pode ser visto como um projeto piloto. O Cybercab opera apenas em Austin, Texas, e em áreas limitadas. E a Tesla, famosamente, nunca conseguiu certificar os seus sistemas autônomos em carros comuns para operarem sem a revisão humana constante.

Enfim, pode ser que Musk e os investidores da Tesla tenham razão em achar que o futuro do transporte será um tédio só e ninguém vai dirigir nada. O Vale do Silício simplesmente ama a ideia de cobrar assinaturas no lugar de vender produtos, mantendo os clientes dependentes eternamente. A própria Tesla cobra assinaturas por serviços como o Full Self Driving.

É o que analistas como o economista grego Yanis Varoufakis chamam de tecno-feudalismo, no qual as empresas de tecnologia possuem propriedades que alugam, no lugar de venderem produtos como no passado.

Mas, mesmo se você se no futuro como um barão em seu castelo na nuvem se defendendo de plebeus com um cyber-trebuchet, acreditar que o Cybercab será um negócio massivo na metade do ano que vem começa a exigir uma fé especial.

Via x.com