
O Grupo Volkswagen divulgou seu relatório de resultados e ele veio com más notícias para o conglomerado. Foi apresentado um prejuízo operacional de US$ 6,6 bilhões nos últimos meses. Esse é o pior resultado desde o escândalo do Dieselgate* em 2015.
Arno Antlitz, CFO e COO do Grupo, fez um pronunciamento ao apresentar os resultados. Parte do prejuízo foi atribuída a uma desvalorização contábil na participação na Porsche e queda de vendas na China, diante da massiva concorrência que acontece no país. Mas uma outra causa é particularmente notável para quem acompanha a transição da mobilidade: a marca está vendendo carros elétricos “demais”.
“O sucesso de mercado de nossos veículos elétricos está exercendo uma pressão adicional em nossas receitas, porque no momento temos menos lucro com veículos elétricos que carros com motores de combustão interna”, afirmou o executivo ao apresentar os resultados.
Não é a primeira vez que o executivo reclama dos lucros em elétricos. Arno já havia dito em maio que elétricos dão 30% a menos de lucro.
“Nosso retorno em vendas depois de nove meses é de apenas 3,8%”, acrescentou. “Isso quer dizer que, a cada € 100 em receita, menos de € 4 ficam como lucro operacional. Isso não é o suficiente em longo prazo.”
Hoje, após a divulgação dos resultados, o CEO da VW, Thomas Schaefer, mandou um memorando à Reuters comunicando a suspensão do desenvolvimento versão elétrica do Golf, com a previsão de lançamento mudando de 2028 para 2030. “Simplesmente não podemos pagar por esse trabalho agora”, afirmou.
O sucesso que “atrapalha”
Antlitz não está exagerando na parte do sucesso: atualmente 40% das vendas da Volkswagen na Europa são formadas por elétricos. Na Alemanha, já são mais de 50%. Com cerca de 25% de participação de mercado europeu, o Grupo Volkswagen é o maior fabricante de carros elétricos no continente, seguido pela Tesla.
A crise já vem de algum tempo. Entre medidas drásticas já anunciadas, está um plano de reestruturação massivo que dará fim a 100 mil postos de trabalho, com o possível fechamento de até quatro de suas unidades de produção na Alemanha e 500 mil unidades a menos produzidas por ano.
Dores da transição
Empresas como a Volkswagen têm um dilema muito difícil em mãos: a transição para EVs, que elas sempre previram, está vindo muito antes do prazo para o qual haviam se preparado. Os chineses estão à porta oferecendo produtos equivalentes por preços muito menores. Tarifas como as da União Europeia não resolvem tudo – mesmo com um mercado fechado, as vendas no exterior podem acabar arruinadas. Um exemplo sendo a própria Volkswagen na China.
Para ilustrar o problema: recentemente, a VW anunciou a chegada do ID.4 ao Brasil. Foi um anúncio extremamente tardio, já que o fim da produção do ID.4 foi anunciado semanas depois. E o preço, R$ 300 mil, parecia coisa da era pré-chinesa, quando elétricos eram um segmento de luxo.
O problema é que esse preço é quase o mesmo pelo qual o ID.4 é vendido na Alemanha: € 42.915 – equivalentes a cerca de R$ 260 mil (cotação de hoje). O ágio – diferença do preço da matriz para o Brasil – no modelo é de 15%. Um Geely EX2 Max é vendido a CN¥ 86.800 na China. Isso dá cerca de R$ 71 mil. Aqui ele é vendido a R$ 137.800 – quase 100% de ágio.
É uma comparação grosseira, mas indica que não há muito onde a VW possa baratear. Mas o segredo mesmo é que não é muito diferente na China: a Geely também apresentou seus resultados ontem e também não foram muito inspiradores.
Os CN¥ 99 bilhões (~R$ 80 bi) de receita bruta em vendas geraram apenas CN¥ 5,21 bi em lucro (R$ 4,25 bi) – isto é, a margem de lucro ficou em 5%. Não seria tão ruim se 92,9% desse lucro não fosse de vendas no exterior, que representam apenas 39,8% do total de unidades produzidas. Isto é: a margem de lucro em vendas da Geely na China é pífia, e na verdade muito menor do que aquilo que a Volkswagen na Europa diz ser inviável.
* O Dieselgate foi quando a VW foi pega programando seus carros a diesel para se comportarem de forma diferente em testes de emissões, basicamente fraudando os resultados.
Via Motor1, CarNewsChina, Reuters
Atualização em 30/10/2026 14:30: acrescentado o cancelamento do Golf elétrico
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