Carros abandonados num pátio, com capim crescendo
O futuro? | Daniel Mok / Unsplash+

Em 16 de outubro, Sui-Lee Wee, correspondente da Ásia do New York Times, publicou seu artigo intitulado After Welcoming China’s Electric Vehicles, This Country Is Paying the Price (“Após Receber os Veículos Elétricos Chineses, Este País Está Pagando o Preço”). O artigo é a respeito da Tailândia, que tem vivido um processo parecido com o do Brasil, no qual marcas chinesas – com a BYD à frente – conduzem um processo de eletrificação rápida. Em 2025, a Tailândia registrou 21% de fatia de mercado de NEVs (elétricos e híbridos plug-in).

Geralmente, não seria o tipo de conteúdo que a gente pensaria em reciprocar. A Tailândia fica literalmente a meio mundo de distância e os EUA se tornaram um retardatário em eletrificação. O ceticismo de um veículo de imprensa por lá soa mais natural do que por aqui. Mas a matéria foi reproduzida pelo Estadão, que inclusive alterou o título para “Este país abriu as portas para os carros chineses e se deu mal; o alerta da Tailândia para o Brasil”.

Com isso, temos um desafio a responder. É o que buscamos fazer a seguir.

O que diz a matéria do NYT

Obviamente recomendamos a leitura da matéria original no Estadão ou no NYT, para não ficar só em nossa interpretação.

Para resumir tudo, temos os seguintes elementos (não na mesma ordem que aparecem na matéria):

  1. A indústria automotiva tailandesa foi por décadas dominada por fabricantes japonesas, que chegaram nos anos 1960 e transformaram o país na “Detroit do Leste”;
  2. Em 2022, a Tailândia estabeleceu metas para eletrificação que previam 30% de carros elétricos em 2030; seguiu-se uma invasão de marcas chinesas;
  3. Os chineses hoje dominam 85% do mercado de veículos elétricos da Tailândia;
  4. A BYD fundou sua primeira fábrica fora da China na Tailândia em 2024, a GWM adquiriu uma fábrica antes usada pela GM;
  5. Os japoneses foram lentos para adotar a tecnologia e estão em apuros. Em 2024 e 2025, a Subaru e a Suzuki fecharam suas fábricas na Tailândia, enquanto a Nissan e a Honda diminuíram a produção;
  6. Múltiplos fornecedores de peças tailandeses, que dependiam dos fabricantes japoneses, faliram, ameaçando uma cadeia de suprimentos que emprega cerca de 700 mil trabalhadores;
  7. Veículos elétricos (híbridos plug-in e elétricos) foram 1/3 das vendas na Tailândia nos primeiros três meses de 2026;
  8. Autoridades tailandesas ouvidas pela reportagem dizem que não tiveram visão suficiente, que o processo foi muito mais rápido e que o impacto foi muito mais negativo do que esperavam;
  9. O governo tailandês está enfrentando o “dilúvio” dos carros chineses com impostos mais altos para fabricantes que não planejam se instalar no país e mais baixos para aqueles que usam mais peças produzidas localmente;
  10. Um especialista afirma que os carros chineses operam por um “ecossistema fechado” e que empresas da Tailândia não têm como entrar em sua cadeia de produção enquanto a maior parte da tecnologia fica na China;
  11. 300 mil empregos podem ser perdidos em 5 anos;
  12. Empresas chinesas têm práticas trabalhistas piores e rejeitaram os sindicatos.

Soa familiar? Para quem acompanha a indústria brasileira, muitos dos argumentos apresentados também estão em questão. Mas há algumas diferenças que merecem ser consideradas.

Comparando Tailândia e Brasil

Imagem noturna do trânsito em Bangkok, Tailândia
Trânsito em Bangkok | Hanny Naibaho / Unsplash+

A Tailândia tem uma população de 71 milhões de habitantes, contra 213 milhões do Brasil. O PIB da Tailândia fechou em 2025 em US$ 577 bilhões, versus US$ 2,28 trilhões nossos. A indústria automotiva tailandesa é a 10ª do mundo, com uma produção prevista de 1,45 milhão de unidades até o fim do ano. A do Brasil é a 8ª, com previsão de 3,1 milhões de unidades – mais que o dobro de lá.

Há algumas diferenças importantes: a Tailândia exporta 50% de sua produção. O Brasil é o 6º maior mercado mundial de carros, e 90% dos veículos feitos aqui ficam por aqui.

E, agora, um fator interessante: a reportagem do NYT conta que a fábrica da BYD, aberta em julho de 2024, acaba de chegar a 100 mil unidades produzidas. A brasileira, em um ano, ultrapassou as 200 mil unidades. A BYD tem planos de chegar a 600 mil unidades anuais nessa planta, tornando-a a maior do Brasil. O “dilúvio” por aqui é, assim, ainda mais acelerado do que lá.

Análise: o produto errado no tempo errado

Se você olhar do ponto de vista de pessoas que têm seu modo de vida ligado direta ou indiretamente às indústrias tradicionais, a imagem pintada pela matéria do NYT é correta. Os chineses chegam como uma invasão bárbara destruindo um negócio de décadas. Essa é uma visão similar à expressa no Brasil pela Anfavea, a associação da indústria estabelecida.

Isso é compreensível vindo de quem tem seu negócio ameaçado. Mas, olhando de fora, essa imagem está ignorando um fator fundamental: o de que falamos de indústrias que oferecem produtos muito diferentes.

O produto que as indústrias estabelecidas e as chinesas oferecem só é o mesmo – “automóvel” – no sentido em que uma lâmpada incandescente é “lâmpada” da mesma forma que uma lâmpada de LED. Ou em que uma TV de tubo catódico ainda é uma “TV” como uma de LCD. É um produto que cumpre a mesma função, mas representa outro momento tecnológico.

Os chineses não estão devorando o mercado porque seus carros têm mais espaço, melhores telas, ou preços menores. Mas porque têm um monopólio na nova tecnologia: carros elétricos e híbridos plug-in. Nem na Tailândia, nem aqui, esses jamais foram fabricados por montadoras tradicionais. Quando chegam, são importados, a um preço que não é competitivo fora do mercado de luxo.

Então não é uma competição injusta o que fazem a BYD e outras chinesas. Simplesmente não é competição nenhuma, porque ninguém mais oferece o seu produto. Só competem entre si.

Não temos uma nova tecnologia competindo com a antiga, mas a sucedendo. Só o fato de poder rodar por um custo 80% menor destrói qualquer argumento pela tecnologia anterior – o preço, que era a maior objeção, é justamente a parte que os chineses resolveram. A própria matéria do NYT reconhece que os tailandeses querem carros elétricos e não dão a mínima para o destino da indústria.

O destino de uma indústria fabricando produtos do passado é tão previsível quanto o da Kodak, que continuou fabricando câmeras e filmes físicos na chegada da fotografia digital. Mesmo se o governo tentasse salvar essas empresas tornando a sucessão mais lenta, isso não só é um esforço fútil, como não haveria nenhuma garantia de que elas não desaparecessem por si próprias, porque sofrem o mesmo processo internacionalmente.

O dilúvio já começou. A indústria que fabrica o produto errado está condenada. Ou essas empresas mudam sua produção, ou quebram, exatamente como na matéria do NYT. É tendo clareza desse fato incontornável e urgente que governantes devem decidir sua política industrial.

E, sim, exigir dos chineses mais produção local. Ninguém quer que a indústria automotiva brasileira termine como a “indústria” “brasileira” de eletroeletrônicos, que simplesmente embala e etiqueta produtos chineses prontos. Esse é o dito white label, no qual a gente termina com o mesmo liquidificador sendo vendido por 5 marcas “nacionais” diferentes.