Lula num carro, no assento do motorista, com a vice-presidente da BYD, Stella Li
Lula com a vice-presidente da BYD, Stella Li | Ricardo Stuckert / Governo Federal

Após o primeiro turno das eleições, fizemos uma análise sobre a possibilidade de Flávio Bolsonaro, um negacionista climático com forte alinhamento com os Estados Unidos, se tornar presidente. A conclusão então foi que provavelmente haveria um aumento nos preços dos carros chineses, que levaria a um aumento de preços no mercado automotivo em geral. Apostamos que um colapso seria improvável.

Mas deu Lula. Será, em contraste, o grande triunfo dos carros elétricos? A BYD será a rainha do mercado automotivo no Brasil?

Antes de responder, vamos ver o que Lula já fez para os carros elétricos, de bom e de ruim.

Os gols contra de Lula

Em seu terceiro mandato, o presidente parece ter feito malabarismo para agradar a todos. Por um lado, cedeu à pressão da indústria estabelecida. Por outro, Lula teve uma relação bastante cordial com as montadoras chinesas, em particular a BYD, e concedeu um incentivo (algo eleitoreiro, mas faz parte) para que um setor específico adquirisse carros elétricos.

O lado negativo de Lula para a eletrificação veio de diversas maneiras. Uma delas foi um incentivo direto aos combustíveis fósseis.

Foi em seu mandato que foi definida a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Do ponto de vista do ambiente, é um desastre. Do ponto de vista econômico, é uma aposta negacionista: a de que o petróleo continuará a ser extremamente estratégico e valorizado no futuro.

Outro ponto foram os subsídios a combustíveis fósseis diante da crise do Estreito de Ormuz. Essa parte não é difícil de entender: seria suicídio eleitoral fazer o contrário. Em quatro anos, veremos se esse tipo de ação ainda é relevante.

Além de incentivar combustíveis fósseis, Lula cedeu à pressão do setor sucroalcooleiro e das montadoras tradicionais. E isso tem um fator político que merece ser mencionado: os sindicatos da indústria, com os quais o PT tem uma ligação histórica, se uniram aos patrões por medo de perderem seus empregos. Eles participaram da campanha da Anfavea contra a isenção fiscal para os kits de montagem (CKD e SKD) chineses usados para fabricar elétricos no Brasil.

É miopia da parte dos sindicatos: se as suas empresas não se moverem, e de forma rápida, seus postos de trabalho já estão perdidos. O que eles deveriam exigir é incentivo à transição, porque é a única forma de salvar os seus empregos.

Outra grande concessão ao atraso foi o fim dos incentivos fiscais a veículos elétricos que foram definidos no fim do segundo mandato de Dilma Rousseff e zeravam taxas de importação. Isso veio a partir de um argumento risível, de que esses incentivos não eram mais necessários, quando a participação de mercado de elétricos e híbridos plug-in era de 1,76%.

Outra foi transformar o Programa Carro Sustentável num caso talvez único no mundo de incentivo fiscal à combustão interna sob um argumento ambiental. Com a consultoria das montadoras, o programa foi feito sob medida para beneficiar carros flex 1.0 que já eram os mais vendidos no Brasil, excluindo qualquer elétrico, mesmo produzido no Brasil (ao menos até se nacionalizarem quase completamente).

E a terceira foi uma aposta convicta em biocombustíveis, vista até no nome do Programa Combustível do Futuro. Esses combustíveis podem ter seu espaço, mas esse espaço não é ser opção à eletrificação. É substituir combustíveis fósseis onde eles ainda precisam ser usados.

O que Lula fez de certo

Lula teve também ações pró-eletrificação. Uma delas veio no Plano Clima, que previu metas tremendamente modestas para a eletrificação – mas previu. Foi a primeira vez em que o governo brasileiro mencionou a eletrificação em seus planos ambientais. Antes, tudo era a respeito de biocombustíveis.

O governo também criou um Departamento de Eletromobilidade no Ministério de Minas e Energia. Esse também foi um “nunca antes na história do Brasil”.

E houve os grandes descontos para o financiamento de carros elétricos no Programa Move Brasil, não por convicção pró-elétrica, mas porque motoristas de aplicativos estão entre os maiores entusiastas de carros elétricos no Brasil. Isso chegou até mesmo a criar uma crise de abastecimento de elétricos importados.

O maior mérito de Lula na eletrificação é no mínimo não mudar nada. Previmos que a eletrificação resistiria ao governo negacionista climático de Flávio Bolsonaro, mas no caso de Lula ela segue no mínimo o caminho atual – ligeiramente prejudicada por incentivos equivocados e impostos pesados de importação, que afetam mesmo modelos em produção nacional. Mas, ainda assim, numa marcha irreversível e em aceleração.

Como será a eletrificação no mandato Lula 4

Em resumo, nossa previsão é: a base é o status quo, no qual chineses pagam 35% de imposto de importação, há IPI zero exclusivamente para carros a combustão, mas também um incentivo para pessoas jurídicas financiarem elétricos. A eletrificação segue em aceleração, mesmo sem real apoio do governo federal.

Durante o período do mandato Lula 4, elétricos devem superar a combustão interna pura. Chineses se tornarão a força dominante na indústria. É possível que consigam nacionalizar sua produção a ponto de passarem a usufruir do incentivo tributário do Programa Carro Sustentável, o que baratearia seus modelos, acelerando o processo. Montadoras tradicionais que não se eletrificarem começarão a sair do país. Algumas delas devem ser extintas primeiro no exterior.

Essas são coisas que não dependem de incentivos do governo. Com isso, são a parte mais forte da previsão.

A parte “soft” é o governo aderir. Quando se tornar óbvio o fato de que o processo é inevitável e irreversível, assim como o de que biocombustíveis não são um caminho alternativo, há uma chance considerável de a política do Planalto mudar. De que o governo Lula 4 entenda o futuro e se movimente na direção dele.

Mas isso não deve acontecer imediatamente. É mais para a metade do mandato.