A diretora da Ford no Reino Unido, Lisa Brankin, postou um pequeno manifesto no LinkedIn criticando a política britânica para veículos de zero emissões – o chamado ZEV mandate, que na prática prevê 100% de elétricos no futuro.

Traduzindo:
A Ford está pedindo ao Governo do Reino Unido que revise urgentemente o ZEV Mandate. Estas são as razões:
A Ford acredita em um futuro sem emissões. Isso não está em questão. O que está em questão é se o caminho adotado pela política governamental reflete como as pessoas realmente compram e fazem uso de veículos hoje.
O governo demonstrou que vai ouvir e agir. O Electric Car Grant [veja mais abaixo], que faz um ano esta semana, está colocando os carros elétricos ao alcance de mais motoristas. Recebemos muito bem o suporte do lado da demanda.
Mas só incentivos não podem fechar essa lacuna. Investimos muito e demos muito desconto, e subsídios governamentais ajudaram — mas a demanda sustentável ainda está aquém das metas para veículos comerciais e de passeio. O Mandato e o mercado se afastaram, e essa diferença está aumentando.
Para muitos motoristas, a mudança faz sentido, e eles estão fazendo proveito dela hoje. Para outros, o momento não é o certo. Isso é especialmente verdadeiro para nossos clientes de veículos comerciais, cujas vans são o coração de seu negócio, e a mudança para o totalmente elétrico não faz sentido para alguns deles no momento.
A União Europeia recalibrou suas metas para corresponder ao mercado. Está na hora do Reino Unido revisar o Mandato ZEV.
A “recalibragem” da União Europeia à qual ela se refere é a proposta de mudar a regra aprovada em 2023, que previa a remoção de 100% das emissões automotivas em 2035. Como apenas elétricos puros realmente não têm emissões, na prática seria um banimento da combustão interna. A mudança veio por forte pressão das montadoras e do governo da Alemanha.
Na nova proposta, a redução é de 90%. Essa revisão ainda não foi votada, mas está perdendo força por conta das consequências da crise do petróleo causada pela Guerra do Irã.
Na contramão do sucesso
O argumento da executiva vem no contexto do (lateralmente reconhecido por ela) sucesso das políticas de eletrificação do Reino Unido. O Electric Car Grant é um subsídio de até £ 3.750 (~R$ 25 mil) para a compra de carros elétricos mais acessíveis.
Curiosa consequência algo irônica do Brexit, o ZEV Mandate ainda tem como meta zero vendas de veículos com emissões em 2035. O mandato já prevê 80% de participação para 2030, no caso dos carros, e 70%, no caso das vans. Cada veículo vendido que não atender a essas especificações será taxado em £ 12.000 (~R$ 82 mil).
Em junho de 2026, as vendas acumuladas de veículos elétricos puros (BEVs) no Reino Unido superaram as de veículos a combustão pura pela primeira vez na história. Atualmente, 30% dos novos veículos registrados no país são BEVs.

Sobre o argumento da executiva a respeito de vans, as vendas para esse tipo de veículo são relativamente mais fracas, com 8,8% de participação de vans elétricas puras em 2026.
Comparado com o Brasil, é um enorme sucesso. Por aqui, segundo a Fenabrave, 292 comerciais leves (vans e caminhonetes) elétricos foram registrados em 2026. Isso é 0,1% de participação no total de 272.663 veículos dessa categoria registrados no ano. E mesmo em automóveis, onde acontece a explosão de vendas, temos menos de 1/3 da fatia de mercado de lá.
Um fato a se notar: diferente dos EUA, os chineses não são banidos no Reino Unido. Ainda que o modelo individual mais vendido seja o Tesla Model Y, a BYD tornou-se o fabricante mais popular do país em maio.
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