Foto de um motor elétrico aberto e sem o eixo, visto de frente
A parte que menos dá problema | Troy Winther / Unsplash+

Quem compra um carro elétrico no Brasil pode ouvir uma preocupação recorrente: e quando precisar de uma peça?

Não é incomum ouvir histórias de horror sobre pessoas que sofrem acidentes e ficam meses com o carro parado e/ou têm que desembolsar valores astronômicos nas peças. E essas histórias não são ficção: pode mesmo acontecer de ser difícil ou custoso conseguir peças de reposição em carros elétricos ou híbridos.

Significa que essa é uma razão para evitar eletrificados? As pessoas que estão fazendo a transição são insensatas?

Não realmente. Pode haver dificuldades em achar peças de manutenção, mas isso é uma situação provisória e não tem a ver com carros elétricos serem elétricos: tem a ver com serem novos e importados. O fato de serem elétricos traz muito mais vantagens que desvantagens. Veja a seguir.

A grande vantagem dos elétricos: menos peças

No uso cotidiano, elétricos simplesmente precisam de menos revisões e peças. Essa é a razão pela qual as histórias de horror envolvendo peças serem, quase sempre, resultado de colisões.

Um carro a combustão precisa trabalhar com motor, sistema de lubrificação, alimentação, ignição e escapamento, além de diversos componentes associados ao funcionamento desse conjunto.

O elétrico não. Um motor elétrico é uma máquina muito mais simples que um motor a combustão. Há cerca de 20 peças móveis no motor elétrico, contra mais de 2.000 em um motor a combustão. Ele também não faz uso de câmbio, com uma redução fixa. E fora o motor em si, também não existe troca de óleo do motor, velas, correia dentada, câmbio, escapamento etc.

Isso pode parecer irrelevante, mas muda completamente a rotina de manutenção. Mais peças móveis significam mais coisas que podem dar errado. E, do outro lado, menos peças são menos peças para quebrar – e comprar.

De acordo com o levantado pelas próprias concessionárias, um elétrico vai gastar 50% a menos em manutenção (e ter 50% menos incidentes que exigem manutenção). Além da economia em combustível, a manutenção é o segundo pilar que explica como um carro elétrico consegue ter um custo de utilização muito mais baixo que um a combustão interna, como frisado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

Existe, é claro, a grande peça a mais que os elétricos têm: a bateria.

E se a bateria pifar?

A bateria de tração (e não a de 12 volts, que é igual à de um carro comum) é a maior fonte de preocupação para as pessoas que pensam em comprar um carro elétrico. Ela concentra grande quantidade de tecnologia e trabalha integrada a sistemas de gerenciamento, controle térmico e alta tensão. E é, de longe, o componente mais caro no carro.

Mas as chances de você simplesmente perder a bateria são pequenas. Uma falha não significa automaticamente trocar toda a bateria. O diagnóstico depende do veículo e do problema encontrado. Em determinadas situações, o reparo pode envolver módulos ou outros componentes específicos. O serviço exige equipamentos adequados e profissionais capacitados.

Quanto ao desgaste, ao menos nos modelos mais modernos, ele é menor do que as pessoas dizem. O maior estudo já feito registrou que, em média, os carros mantinham 91% de sua bateria aos 150 mil km de uso. E, no pior caso entre 500 mil testes, 77,46%. Outro estudo semelhante revelou uma perda média de capacidade de 1% ao ano.

E aí existe a garantia. Pelo período ou distância estabelecidos, a montadora cobre perdas além do esperado – atenção aos contratos nessa hora.

Freios e pneus: o que gasta mais e o que gasta menos?

Entre as partes em comum que elétricos têm com carros a combustão interna estão freios e pneus. E vale mencionar essas peças (diferente de, por exemplo, faróis ou suspensão) porque elas sofrem desgaste de formas diferentes em elétricos.

Os freios gastam menos: num carro elétrico a frenagem é geralmente magnética – a chamada frenagem regenerativa consiste em inverter o motor elétrico para que ele resista ao movimento, gerando energai. Com isso, as pastilhas não precisam entrar em contato com o disco (e se desgastar) frequentemente, apenas em frenagens mais bruscas. Com isso, eles geralmente exigem 30% a 50% menos de reposição, dependendo do comportamento do motorista.

Já com os pneus é o contrário: como elétricos são mais pesados, eles tendem a ter uma desvantagem nessa parte. Espere 20% a 30% a mais de reposição de pneus, e pneus específicos para carros elétricos são mais caros.

Elétrico ou híbrido?

Antes de fecharmos explicando por que as peças podem demorar ou sair caras, vamos separar elétricos de híbridos. Híbridos têm dupla motorização. Isso significa que eles não têm a mesma facilidade ou custo menor de manutenção que elétricos. Eles também são mais leves que elétricos, mas mais pesados que modelos a combustão, então ficam no meio do caminho com pneus. E possuem freio regenerativo, o que os deixa mais próximos dos elétricos nesse quesito.

Mas híbridos – principalmente os híbridos plug-in – também têm o que leva as peças a serem mais caras: são novos e de montadoras recém-instaladas. O que nos leva a…

Por que as peças podem demorar ou ser mais caras?

Já estando claro que substituições de peças são menos comuns em carros elétricos, vamos retornar à pergunta principal. Imagine um cenário catastrófico: uma colisão. Um acidente assim pode exigir para-choque, farol, capô, porta, sensores, câmeras, módulos eletrônicos ou outros componentes específicos.

Em um modelo vendido em grande volume, existe mais demanda. Isso incentiva concessionárias, distribuidores e fabricantes independentes a manter peças em estoque e desenvolver alternativas para o mercado de reposição.

Em um veículo importado e/ou vendido em poucas unidades, a situação pode ser diferente. A peça pode precisar ser encomendada e, automaticamente, pode existir um prazo maior para a chegada.

Elétricos ainda são importados: mesmo os produzidos nacionalmente ainda o são com kits pré-prontos (CKD e SKD), que chegam com todas as peças.

Enquanto isso, vale a dica básica: tenha um seguro para seu carro. Vai custar um pouco mais caro (mas a tendência é que os valores acabem convergindo com o tempo).