Ele chegou ao Brasil basicamente ao mesmo tempo em que o BYD Dolphin: agosto de 2023. Mas, enquanto o Dolphin é atualmente o carro mais vendido do Brasil no varejo, o modelo da GWM parece ter perdido metade de suas vendas para a novidade da marca, o SUV Ora 5 (sem zero): segundo a ABVE, ele caiu de 490 unidades emplacadas em maio para 310 em julho, enquanto o recém-lançado chegou a 725. No total, em toda sua história, cerca de 12.500 unidades do Ora 03 foram vendidas.
Qual lugar restou então para o Ora 03 no mercado brasileiro? Ainda vale a pena investir num deles?
Fiquei uma semana com um Ora 03 BEV58 emprestado e acredito ter uma resposta.
Um carro com muita personalidade
Como o segundo teste prático do evdrops, algo que já deu para notar em comparação ao primeiro, do Dolphin Mini, foi: se antes testamos um carro funcional, entregando um ótimo pacote básico sem emoções, o Ora 03 esbanja personalidade.
E quando falamos “personalidade”, é como quando dizemos que uma pessoa tem muita personalidade: isso vem para bem e também para mal. É um carro com charme, tecnologia, desempenho, mas também tem suas “manhas” e alguns recursos que não funcionam muito bem.
Vamos então ao primeiro grande fator de compra no Ora 03: o design. Quem vê um carro desses na rua, nota. E não se esquece. Alguém pode acusar o Ora 03 de copiar a tradição do Grupo Volkswagen, se inspirando nos Porsches e no Fusca – e a GWM definitivamente parece ter dado um passo óbvio demais com o Ballet Cat. No Ora 03 dá para dizer que ficou no campo da inspiração e o resultado é realmente icônico.
Diferente de outras fabricantes, que parecem ter decidido que brasileiro odeia cor, a GWM oferece tons interessantes para acompanhar o visual. Além do preto, branco e cinza para gente chata, é vendido no Azul Copacabana (o que testamos), no Vermelho Brava e no altamente nostálgico Azul Electric (que o povão chamaria de “azul calcinha”).

E o segundo grande ponto de compra: ainda que não chegue a ser um hot hatch, o Ora 03 entrega o prometido pelo visual: com 126 kW (171 cv) de potência, e 250 Nm de torque para seus 1.591 kg, ele tem bem mais que o BYD Dolphin Padrão (95 cv), ainda que empate com o SE. Faz com isso de 0 a 100 km/h em, oficialmente, 8,2 segundos, com algumas medições em 7,9 s.
A sensação é de um carro esperto e ágil no pé, muito agradável de dirigir. Mesmo com especificações intermediárias, ele transmite bem aquela sensação especial de se acelerar um elétrico com a partida imediata.
E, algo interessante: você pode ver esse motor. O que vai abaixo do capô não é um frunk higienizado, mas parece o de um veículo a combustão, com tudo visível. Como ninguém vai botar a mão num motor elétrico para trocar óleo, é mais uma coisa para quem gosta da estética. Quem não gosta pode sentir a falta do frunk.

Espaço, recursos, etc.
Antes de falar da parte em que a personalidade pode ser excessiva, vamos ao básico: o Ora 03 é um hatch compacto, mas não um subcompacto. Ele é curto, mas é largo e alto, com 4.235 mm de comprimento, 1.825 mm de largura e 1.603 mm de altura. Não é um fenômeno no estacionamento ao fazer curvas, mas não chega a ser problema. A suspensão não se fez notar, e isso eu considero um ponto positivo: suspensão é realmente algo que está correto quando se pode ignorá-la.

Há um ótimo aproveitamento do espaço interno para os passageiros, com a frente sendo quase uma cabine de SUV. Na traseira, há menos espaço, mas ainda encaixei meus 1,82 m sem encostar no teto e sem encostar os joelhos no banco da frente totalmente retraído. O banco, aliás, tem ajuste elétrico. O volante também tem ajuste, mas manual.
Há um excelente e muito amplo teto solar, que pode ser fechado completamente.

O ar-condicionado tem botões físicos para ativar no painel, mas a regulagem é apenas na central de mídia e só há saídas na frente.
O Ora 03 paga um preço pelo espaço dedicado aos passageiros: seu porta-malas é minúsculo, com apenas 228 litros. Isso é menos que um Dolphin Mini. Ele nem parece tão pequeno assim, porque tem uma profundidade considerável, mas o formato da porta traseira limita seu uso na vertical. Dá para rebater o banco, mas ele não fica perfeitamente horizontal.

E, ponto positivo: dentro, ele possui um estepe.
A bateria é melhor que a dos concorrentes: 58 kWh, que dá para 315 km segundo o Inmetro, mas usei por uma semana, quase sempre no modo esportivo, sem nem chegar à metade. Isso pode ser carregado a 58 kW, o que dá, oficialmente, cerca de meia hora para 30% a 80%. No teste, eu levei 37 minutos para colocar 22,43 kWh até completar (os últimos pontos percentuais sempre são muito mais devagar).
Opções até demais
Outra coisa que o Ora 03 tem de vantagem sobre a concorrência é sua enorme lista de recursos ADAS. Além da assistência de faixa, há alertas de proximidade e câmeras nos retrovisores, na frente e na traseira, detector de placas de velocidade, e controle de colisão em baixa velocidade – extremamente útil na hora de estacionar.
Esse sistema de câmeras dá uma excelente visão, melhor que o que os outros carros já chamam de 360 graus. É possível acioná-las à vontade por controles no volante.
São opções até demais. E quando falo demais, quero dizer que há mesmo algo em excesso. Porque algumas opções funcionam melhor que outras, e essas piores acabam sobrando. Dá para se perder no menu de configurações do carro, para habilitar ou desabilitar cada uma delas a gosto, e também regular sua sensibilidade e mais.

O problema é que o carro esquece certas configurações. Não consegui isolar exatamente quais, mas alguns comportamentos voltaram ao padrão de fábrica ao desligar e ligar (é certamente o caso do one-pedal drive). Como essas configurações são tão detalhadas, isso é uma falha a se considerar: um carro como esse você quer que fique do seu jeito.
Um carro manhoso
E aqui chegamos na parte negativa da personalidade: o Ora 03 é um carro meio manhoso. Ele tem um jeito dele de fazer as coisas.
Há várias peculiaridades no Ora 03. Algumas são perfeitamente inofensivas: o controle de assistência fica numa alavanca abaixo do volante, e os botões no volante seguem uma configuração oposta à maioria dos carros, com os controles de mídia à esquerda e os menus, à direita.
Outras podem ser irritantes, como a alavanca de seta: tentar cancelar a seta facilmente faz o carro dar seta na direção oposta. Há um ponto bem específico, que deve ser atingido com delicadeza, onde se pode cancelar a seta sem ativar a outra.

Parte da ampla gama de recursos de segurança pode acabar tendo um lado negativo. É o caso dos múltiplos alertas, emitidos com frequência no trânsito. São todos opções de segurança, podem ser configurados no menu, mas alguns deles podem ser considerados sensíveis ou insistentes demais. Por exemplo, o alerta de colisão traseira: não há realmente muito o que fazer quando você recebe um alerta assim. Não há como jogar seu carro no da frente. E ele ativa com relativa frequência no trânsito.
O carro também tem um controle de faixa de emergência por padrão. Significa que ele vai corrigir a sua direção mesmo com a assistência desligada.
E um recurso de segurança que chegou a me dar um susto: se você não usa o cinto de segurança, o Ora 03 ativa o freio de estacionamento. Mas não dá nenhum aviso e o motor responde ao acelerador. O resultado é forçar o carro parado no mesmo lugar, com ele se movendo para cima.
São enfim “manhas” com que você pode se acostumar, e muitas delas, como os recursos de segurança, têm um lado obviamente positivo. Mas há também algumas partes que não cumprem o seu papel e simplesmente sobram.
Partes reprovadas
Basicamente foram reprovados no teste o assistente de faixa e o modo one-pedal.
O assistente, por padrão, não vem nem ligado: há o já citado assistente de emergência, mas o controle de faixa precisa ser habilitado no menu. No teste, com o assistente ligado, o Ora 03 pareceu dançar na pista: jogava para um lado e, ao chegar na faixa, corrigia excessivamente, jogando para o oposto. Não transmitiu uma sensação de segurança.

(Pessoalmente, não consideraria tanto um fator para evitar a compra porque não gosto de nenhum assistente de faixa: enquanto não há autonomia nível 3, basicamente você está deixando o carro guiar quando ele não é realmente habilitado para isso e exige você estar com as mãos ao volante pronto para cancelar suas decisões. Se o recurso funciona bem, inevitavelmente você começa a confiar nele e isso leva ao paradoxo de, quanto melhor, mais perigoso o assistente potencialmente ser. Se ele funciona bem em 99,99% do tempo, basta esse um segundo errado para causar um desastre. Esse paradoxo é claro no Tesla FSD e os processos pelos acidentes que causou.)
Por outro lado, o controle de velocidade e distância do veículo da frente funcionaram perfeitamente. Dá até mesmo para usar em baixa velocidade no congestionamento, ainda que você tenha que pisar no acelerador para sair se o carro parar completamente.
O one-pedal drive acabou sendo outra decepção. Ele fica escondido no menu de configurações e precisa ser acionado com o carro parado, toda a vez que ele é ligado.
Parece que a GWM ficou com vergonha desses recursos e não é por nada: a distância de frenagem, mesmo com a regulagem máxima, é alta demais. Na descida, o carro chegou a continuar andando. Há alguma coisa que desabilita o modo automaticamente e sem aviso, mas nunca consegui descobrir o que é.
O Ora 03 foi um injustiçado?
Acredito ter deixado claro que no Ora 03 há um carro com carisma, bom de dirigir, com muitos recursos – uns melhores que outros, mas não dá para reclamar da ausência deles. O que então deu errado com o Ora 03? Por que ele não foi tão longe quanto o BYD Dolphin e seus novos concorrentes?
Primeiro, não deu tão errado assim: centenas de modelos vendidos todo mês não tornam ele nem perto de ser um carro ignorado. Mesmo hoje, com a concorrência interna, o Ora 03 ainda vende dez vezes mais que toda a linha elétrica Mini Cooper. Ele pode ser “cult”, mas não é o mais cult.
Uma coisa que sempre pesou contra foi o Ora 03 estar oficialmente posicionado num lugar esquisito em termos de preços. Por R$ 169 mil, está acima dos intermediários, mas abaixo do luxo. Seu preço é o mesmo da entrada do MG4 (padrão, não Urban), que é um legítimo hot hatch premiado internacionalmente.

Após a estreia do Ora 05 por um preço mais barato que o Ora 03, a GWM ofereceu uma promoção de R$ 20 mil na compra. R$ 149 mil é um preço que dá para considerar bem competitivo com os carros na mesma faixa.
Mas será isso a resgatar as vendas do modelo? No fim das contas, talvez o Ora 03 não seja mesmo um carro para as massas. O que mais pode motivar a compra é subjetivo: ele é mais “interessante” que carros na mesma faixa de preço e características. Com um design mais carismático, com seu amável teto solar, com sua ótima sensação de dirigir, com todos seus recursos e até mesmo com todas as suas “manias”. E não é um SUV – espaço no porta-malas à parte, eu definitivamente prefiro hatches.
O GWM Ora 03 pode não ter realmente vocação para “Fusca elétrico”, mas é o tipo de carro para o qual o dono dá um nome. Se você está à procura de um veículo que tenha esse tipo de apelo carismático, vale a pena conferir.
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