
Para quem é apressadinho: não. Provavelmente não é uma grande ideia adiar a compra por causa da revolução tecnológica que deve chegar em breve. Mas a resposta depende do que você quer de um carro elétrico e o que você teme perder.
Por que as baterias em estado sólido devem mudar tudo?
As baterias em estado sólido têm esse nome por uma razão óbvia: no lugar de serem tanques com líquidos, como as baterias de íon de lítio usadas em quase todos os carros, elas são sólidas, como uma pilha. Parece simples, mas produzir algo assim em escala e a um custo viável traz desafios de engenharia altamente complexos – ou já estariam na rua há muito tempo, porque foram inventadas no século 19.
Essas baterias foram apelidadas de Santo Graal dos carros elétricos porque basicamente fazem tudo melhor:
- Têm maior densidade energética, o que significa que baterias menores e mais leves podem fazer o mesmo que as atuais, ou que é possível ter mais energia disponível com o mesmo peso;
- Têm mais segurança, porque não carregam líquidos inflamáveis;
- Podem operar a maiores temperaturas, o que significa que podem ser carregadas mais rápido;
- Têm mais flexibilidade de formatos, já que não precisam ser um tanque, permitindo distribuí-las pela carroceria para formas mais livres.
O que as baterias em estado sólido não fazem melhor é: serem mais baratas. (E, bem, estarem à venda no momento.)
Vários fabricantes já prometeram baterias em estado sólido, e todos prometem para breve: entre este e o próximo ano. É o caso da BYD, Changan, Chery, Toyota e Volkswagen. Existe até o caso curioso da Donut Lab, que afirma já estar instalando baterias em estado sólido em suas motos – mas quase todo mundo na indústria acha altamente improvável que uma empresa desconhecida da Finlândia passe na frente de todos os gigantes asiáticos e ocidentais.
A ideia então do consumidor é: diante de uma revolução tecnológica próxima, seria o caso de adiar a adoção? E a resposta tem duas partes: uma é a razão prática para a adoção e outra é o temor por desvalorização dos carros atuais.
Razão para não comprar: baterias em estado sólido tornarão os carros elétricos muito melhores
A pergunta prática é: carros com baterias em estado sólido tornarão sua vida mais fácil a ponto de serem o fator decisivo? O que impede você de comprar um elétrico hoje deixaria de existir com elas?
E a resposta é: se você tem essa dúvida, talvez esteja subestimando o que a tecnologia atual já é capaz de fazer.
Baterias em estado sólido, como vimos, fazem tudo melhor. A maior diferença deve ser que elas permitam veículos com maior alcance e/ou mais leves, portanto mais ágeis e econômicos. Possivelmente há um ponto ideal, “cachinhos dourados”, em que aumentar o alcance não torna um carro mais atrativo, enquanto diminuir o peso torna.
E, como já temos carros elétricos puros chegando em 950 km de alcance, como o BYD Great Tang, esse ponto já deve ter sido cruzado com a tecnologia atual. Já é um alcance mais do que um carro a combustão interna. Os usos para tanto alcance começam a se tornar mais nichados – mas nada impede de alguém criar um carro com baterias de estado sólido e 2.000 km de alcance para aventuras, mas é um nicho.
Note então que o maior benefício da tecnologia seria em carros menores. Não importa muito você ter mais alcance ainda num carro acima de meio milhão de reais que já tem um alcance acima de 600 km. Seria interessante tê-la em urbanos leves, que ficam abaixo de 300 km pelo Inmetro. Algo como fazer uma viagem entre Salvador e Recife ou São Paulo e Rio sem precisar recarregar.
Mas essa parte é justamente a que deve demorar: todos os fabricantes afirmam que essas baterias irão primeiro equipar modelos no topo de sua linha. Talvez eles exibam números extravagantes como os 2 mil km de autonomia que falamos, talvez fiquem mais leves e rápidos. Mas o que não devem ficar, ao menos nos primeiros anos, é mais baratos.
Razão para não comprar: os carros elétricos com a tecnologia anterior irão desvalorizar
Outra razão é a possibilidade de desvalorização dos modelos com a tecnologia atual quando a nova chegar. Esse foi um argumento levantado por José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), que esteve num evento em São Paulo recentemente, coberto pelo evdrops. Ele afirma que carros com a tecnologia anterior serão vistos como ultrapassados.
E, ainda que, inegavelmente, a tecnologia deve ter essa pressão, há que se pensar no tempo que isso irá levar.
Carros de luxo, onde a tecnologia deve estrear – onde todas as tecnologias estreiam – já se desvalorizam radicalmente independente de sua motorização. Essa é a razão para a má-fama dos carros elétricos em revendas: os modelos usados no mercado são de uma era (3 anos atrás) em que elétrico era coisa de luxo. Modelos recentes, na onda da popularização começada pelo Dolphin Mini, com altíssima demanda, estão desvalorizando menos que seus equivalentes a combustão interna (ao menos é o cenário atual).
É parte da dinâmica do mercado de carros de luxo que sejam um anti-investimento. Ter um deles significa que você não se importa com esse tipo de questão.
E quanto aos populares? Como já vimos, seriam justamente eles a se beneficiar mais da tecnologia. Quando chegarão as baterias em estado sólido para eles?
Segundo especialistas chineses do setor, a resposta é: puxe uma cadeira.
Ouyang Minggao, da Academia Chinesa de Ciências, diz que as baterias em estado sólido devem mesmo sair este ano ou no próximo, mas devem levar entre 5 a 10 anos para terem 1% de participação de mercado. Lian Yubo, cientista-chefe da BYD, também acha que elas devem demorar, ainda que não tenha feito uma previsão precisa.
Assim, o setor de entrada, que deve continuar sem baterias em estado sólido por um tempo considerável, não deve ser atingido em curto prazo pela nova tecnologia. Talvez quando as baterias em estado sólido finalmente estiverem logo ali na esquina, faça sentido se preocupar com seu efeito sobre a desvalorização. Mas não parece haver benefício em segurar uma compra hoje.
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