Foto promocional do Tesla Model Y
Model Y, o Tesla mais vendido | Tesla / Divulgação

Após muitos anos ignorando a América do Sul, a Tesla anunciou que irá abrir suas operações na Argentina e Uruguai. O anúncio vem depois da empresa ter se instalado no Chile (no fim de 2024) e na Colômbia (em novembro de 2025).

A notícia tem chamado a atenção da imprensa brasileira, com o UOL Carros vendo indícios de que a empresa poderá finalmente se instalar no Brasil. Ela possui, eles lembram, um CNPJ ativo e tem uma representação num escritório no Brasil. E também, recentemente, nós avistamos anúncios de recrutamento para a América Latina pedindo o domínio da língua portuguesa.

Essa parte é muito provável: a Tesla deve mesmo chegar ao Brasil. Mas isso não significa que venderá carros por aqui.

A Tesla na América Latina

No Uruguai, em maio, 40% das vendas foram de elétricos puros (BEVs). Mas a Argentina é retardatária: em junho de 2026, foram registrados 865 veículos elétricos no país, com 3860 unidades no total do ano. No Brasil, até maio, foram 90.570 emplacamentos de apenas BEVs (números da ABVE e a Bright Consulting).

O mercado automotivo brasileiro é maior que argentino na mesma proporção que a população: cerca de cinco vezes mais. Para que as vendas da Argentina fossem equivalentes às do Brasil, teriam que estar registrando 15 mil emplacamentos acumulados.

O que a Tesla quer com a Argentina? Pelo menos por enquanto, não é vender carros, mas carregadores e sistemas estacionários de armazenamento (BESS). No último dia 16, a Tesla assinou uma carta de intenções com a estatal argentina de energia YPF (Yacimentos Petrolíferos Fiscales), para a instalação de carregadores e sistemas de armazenamento estacionários (BESS).

O Brasil tem uma alta demanda por BESS, que a BYD já confirmou que irá fabricar por aqui, e também carregadores. Possivelmente os negócios da Tesla no país sejam similares, ou ainda envolvam os prometidos robotáxis e robôs humanóides, e infraestrutura de IA.

Por que a Tesla não vende carros no Brasil

Se a Tesla estivesse interessada em carros, provavelmente já teria se movimentado para fincar um pé no maior mercado da América Latina. Ainda que não haja nenhuma afirmação positiva ou negativa por parte da empresa, o problema é que seu modelo de negócios não é compatível com a forma como as vendas acontecem no Brasil e as suas leis.

A lei brasileira (de 1979) exige que vendas para pessoas físicas (no varejo) sejam feitas por meio de concessionárias. As montadoras só podem vender diretamente para empresas – e alguns grupos especiais, como taxistas, PCDs e pequenos produtores rurais.

Desde seu início, o modelo de negócios da Tesla se baseia exclusivamente em vendas diretas. Os carros são vendidos pela internet e as lojas da Tesla servem mais como showrooms para test drives e vendas de acessórios, direcionando os clientes a comprar no site, às vezes também provendo assistência técnica. No mundo inteiro, esses estabelecimentos são de propriedade da própria Tesla, o que não as qualificaria como concessionárias pela lei brasileira, que, como o nome indica, são concessões, e não podem ser propriedade das própria montadora.

A empresa chega ao ponto de não poder vender seus veículos no Texas, onde são fabricados, porque a lei é como a do Brasil, exigindo concessionárias. Por lá, as pessoas compram pela internet e a transação é processada em outro estado.

Em nenhum país do mundo a Tesla vende veículos por terceiros. Exceto se ela conseguir alguma permissão especial no Brasil, seu modelo de negócios estaria praticamente limitado a vendas corporativas para pessoas jurídicas.

O evdrops entrou em contato com a Tesla para pedir mais explicações sobre suas vendas e planos. Atualizaremos esta matéria se houver resposta.