
Não é exagero dizer que as vendas de carros elétricos vivem um momento de boom no Brasil. Em maio, elas registram um aumento de 201% em relação ao ano anterior (isto é, triplicaram), e um em cada cinco carros elétricos circulando hoje no Brasil foi emplacado neste ano. O BYD Dolphin Mini deve completar cinco meses como o carro mais vendido do Brasil… no varejo.
Esse é o grande porém nessas notícias positivas sobre carros elétricos: “varejo”. No varejo, que são as vendas para o consumidor comum, em maio de 2026, três dos cinco carros mais vendidos são elétricos e um foi um híbrido plug-in. Nas vendas diretas, que acontecem principalmente para empresas, com algumas exceções para pessoas físicas, como PCDs, taxistas e produtores rurais, eles não figuram nem entre os dez mais. E, considerando tanto vendas gerais, tanto diretas quanto no varejo, o poderoso Dolphin Mini não fica nem entre os cinco mais vendidos.
É como se varejo e vendas diretas fossem dois países diferentes. O que explica esse contraste? A resposta dessa “pergunta do milhão” (ou, mais corretamente, pergunta do trilhão) passa por fatores financeiros, operacionais e estruturais que afetam cada público de maneira diferente.
Por que elétricos vendem no varejo
Quando uma pessoa compra um carro para uso próprio, a decisão costuma considerar aspectos que vão além do preço de compra. Economia com combustível, conforto ao dirigir, silêncio a bordo e menor necessidade de manutenção entram na conta. Nos carros elétricos, esses benefícios são percebidos logo nos primeiros meses de uso.
O Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), mantido pelo Inmetro, mostra que os veículos elétricos apresentam índices de eficiência energética significativamente superiores aos modelos equipados com motores a combustão. Para quem roda diariamente, principalmente em centros urbanos, a redução dos gastos com energia pode ser percebida rapidamente.
Esse ponto, em especial, ajuda a explicar a razão pela qual muitos consumidores estão dispostos a pagar mais no momento da compra de um carro elétrico, que na imensa maioria é mais caro do que um similar a combustão, em troca de custos menores durante a utilização.
O ex-cliente do seminovo
O evdrops conversou com Cassio Pagliarini, CMO da Bright Consulting, especialista em mercado automotivo. Na visão do executivo, há diversos fatores que podem explicar o sucesso dos carros elétricos no varejo, mas o resumo é simples: “Se a gente tem vendas no varejo muito forte, é porque os clientes individuais, os clientes de varejo, os clientes de showroom, estão buscando esses veículos”, pontuou. “Para uma montadora é muito melhor você vender para clientes de varejo, clientes showroom. Os descontos são muito menores do que você vender para uma locadora, vender por uma autarquia ou para uma concorrência. Então, o motivo pelo qual lideram as vendas do varejo é por causa dos clientes buscando, especialmente clientes que compravam seminovos/”
Segundo Pagliarini, o “molho” que explica o sucesso dos carros elétricos no varejo brasileiro é o cliente que, antes, preferia comprar um carro seminovo a combustão. Esse mercado, para ele, está perdendo espaço para os eletrificados 0km, especialmente para os de marcas vindas da China, cada vez mais presentes por aqui.
“A gente passou a ver que clientes que usualmente compravam veículos com um ano e meio de uso, veículos seminovos, estão pulando para um carro chinês novo, porque, na visão delas, estão arriscando com o veículo eletrificado, mas elas têm o contato direto com a fábrica e a garantia forte, que é um argumento de venda muito forte. Então, o varejo está forte porque o cliente que está atrás dele e nós temos um grupo razoável de clientes buscando veículos eletrificados novos.”
Por que elétricos não vendem tanto em vendas diretas
Nas empresas, que podem acessar a venda direta, a lógica é diferente. Um gestor de frota não avalia apenas consumo de energia ou conforto. Antes de aprovar a compra de dezenas ou centenas de veículos, é necessário calcular o chamado custo total de propriedade.
Esse cálculo inclui diversos fatores:
- Valor de aquisição;
- Depreciação;
- Manutenção;
- Seguro;
- Disponibilidade operacional;
- Valor de revenda;
- Infraestrutura necessária.
Alguns desses fatores são óbvios: os elétricos mais baratos custam no mínimo R$ 30 mil a mais (em venda direta) que os a combustão mais baratos. Seguros ainda são mais caros. A infraestrutura avança, mas a cobertura ainda é desigual.
O valor de revenda, ao menos no momento, para seminovos, na verdade favorece elétricos – mas não é claro se isso irá durar quando esses mesmos carros saírem dessa categoria e se tornarem simplesmente usados. O histórico, de antes do atual boom dos carros elétricos, ainda é de depreciação.
Manutenção e custo de uso – que custam 50% e 75% a menos que em carros a combustão – são reconhecidamente os fatores a favor de elétricos. Mas, com as partes incertas já citadas, os empresários ainda não estão totalmente convencidos e pesa o medo de a conta no futuro não fechar.
Infraestrutura cresce, mas ainda preocupa
Um dos argumentos mais utilizados contra os carros elétricos nos últimos anos era a falta de infraestrutura de recarga. Esse cenário mudou bastante e, nos últimos 3 meses, mesmo com o crescimento exponencial das vendas dos carros elétricos, a infraestrutura de recarga rápida avançou mais rápido que a frota.
Mesmo assim, a distribuição ainda não é homogênea. Grandes capitais e corredores rodoviários contam com boa cobertura. Em contrapartida, diversas cidades menores ainda possuem pouca ou nenhuma infraestrutura pública disponível. Para uma pessoa física, isso raramente representa um problema grave, já que (idealmente) a maior parte das recargas acontece em casa. No caso das empresas e grandes frotas, porém, a realidade é diferente, já que muitas operam em regiões do país que seguem carentes de uma infra decente.
Tempo parado para recarga também joga contra
Outro aspecto importante envolve produtividade. Uma empresa de logística, por exemplo, precisa manter seus veículos em operação o maior número possível de horas por dia. Por conta disso, deixar parte da frota parada por horas é algo inimaginável, já que, para quem opera no mercado, o jargão “tempo é dinheiro” segue sempre atual.
Isso não significa, porém, que os carros elétricos sejam inviáveis para operações corporativas. Pelo contrário. Diversas empresas já utilizam os BEVs com sucesso em entregas urbanas e deslocamentos metropolitanos. A questão principal é que nem todas as operações possuem o mesmo perfil.
Trocando em miúdos, dá para resumir essa situação da seguinte forma: rotas mais conhecidas e, digamos, previsíveis, favorecem a adoção da eletrificação pelas empresas com grandes frotas. Operações que percorrem grandes distâncias diariamente,porém, ainda exigem análises mais cuidadosas antes da migração para os EVs.
Mercado de usados segue em estudo
Outro fator pouco discutido fora do setor automotivo é a importância do valor de revenda. Locadoras e grandes frotistas costumam renovar suas frotas de veículos periodicamente. Quando isso acontece, os automóveis retornam ao mercado como seminovos. Nos carros a combustão, existe um histórico consolidado de décadas sobre comportamento de preços e depreciação. Nos elétricos, porém, esse histórico ainda está sendo construído.
Embora a procura por EVs usados esteja crescendo em uma boa velocidade, muitas empresas, especialmente as mais tradicionais, ainda preferem acompanhar a evolução desse mercado por mais um tempo antes de efetivamente ampliar investimentos em larga escala neste segmento.
A questão das locadoras
Por fim, há o fato de que cerca 50% das vendas diretas serem feitas para locadoras. E locadoras tem um perfil diferente também das empresas comuns. Pode ser altamente tentador para um frotista eletrificar seus veículos e aproveitar a economia em manutenção e combustível. Mas locadoras cobram o combustível dos clientes e ficam com carros por pouco tempo, antes de a manutenção se tornar realmente crítica. Além disso, os próprios clientes podem preferir não se preocupar com infraestrutura quando alugam um carro pra viagens.
Não significa que isso – como todo o resto – isso não esteja mudando. Em fevereiro, a Localiza fez um contrato com a BYD para adquirir 10 mil carros elétricos. O maior uso desses carros é para locações mensais – nas quais os interesses dos clientes é quase o mesmo que ao comprarem carros zero km.
No fim das contas, é uma questão de dinheiro: isso irá mudar quando o empresariado, incluindo as locadoras, notarem que estão perdendo dinheiro por insistirem numa tecnologia que está se mostrando defasada. As locadoras precisam vender seus carros como seminovos – se a tendência atual se mantém, deve chegar o momento em que esses carros, vistos como menos desejáveis pelo consumidor comum, incorram em maiores perdas na venda.
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