Imagem de retrovisor com a palavra RETROSPECTIVA acima
Annus mirabilis | Luo Lei / Unsplash+

Hoje, 9 de setembro, celebramos o primeiro ano do evdrops. Fechamos esse primeiro ano com a sensação de que conseguimos mostrar a que viemos: foram mais de 850 conteúdos publicados e nossa audiência média diária cresceu 300 vezes comparada com o que foi registrado no primeiro mês.

Quando decidimos criar o portal, já era claro que havia uma revolução em andamento, que ela tinha seus vencedores e perdedores, e que havia uma narrativa em disputa. Mas mesmo nossos palpites mais otimistas não arriscariam prever algo como o que aconteceu: o mercado de veículos elétricos no Brasil mais que triplicar em um ano.

Abaixo, selecionamos algumas das notícias mais importantes que ajudam a entender este período, que marca o começo de uma revolução no transporte no Brasil.

Setembro de 2025: O Programa Carro Sustentável mostra resultados

O Programa Carro Sustentável estreou em 11 de julho de 2025, e, em setembro, a WebMotors coletou seus primeiros resultados, com um aumento da procura nos veículos beneficiados. Mas a principal notícia não estava na procura, mas quais carros foram beneficiados: aqueles que já eram mais vendidos no Brasil.

Isso porque o programa foi assumidamente combinado com as montadoras tradicionais para beneficiar modelos que já existiam, e excluir os veículos elétricos chineses, mesmo se nacionalizados, que estavam chegando. Na prática, é um programa para incentivar a combustão interna com justificativa ambiental, a da suposta sustentabilidade desses carros se usassem apenas etanol.

Outubro de 2025: BYD inaugura sua fábrica em Camaçari

Com a presença do presidente Lula, a BYD começou a operar sua planta na antiga fábrica da Ford em Camaçari (Bahia). Poucos dias depois, anunciamos que o primeiro carro elétrico produzido comercialmente deixava uma linha de montagem brasileira em mais de 50 anos. Em julho, a BYD anunciou ter ultrapassado a marca de 100 mil veículos na fábrica.

Em setembro de 2025, a BYD era a sétima maior montadora do país, com 5,41% de participação no mercado de leves. O elétrico que melhor se qualificava na lista dos mais vendidos era o BYD Dolphin Mini, na 22a posição, com 3.392 unidades emplacadas. Em agosto de 2026, a BYD está em quarto lugar entre as montadoras, com 9,69% do mercado. O Dolphin Mini agora é o quarto carro mais vendido, com 8.299 unidades.

Menção honrosa: fim do incentivo decretado por Donald Trump leva a um crash na indústria dos EUA.

Novembro de 2025: Geely EX2 é lançado no Brasil

O único modelo a realmente causar preocupação à todo poderosa BYD é o Geely EX2. Na China, ele superou o BYD Dolphin Mini nas preferências do consumidor em maio de 2025, tornando-se desde então o carro mais vendido do país. Por aqui, ele fechou agosto como o terceiro elétrico mais vendido – e a Geely nem nacionalizou a produção ainda.

Mas, mais do que simplesmente um lançamento importante, o EX2 significou a primeira vez em que pudemos testar um carro (ainda que apenas por uma hora) em nome do evdrops. Seu lançamento tem, assim, um significado especial para nós.

Menção honrosa: o Salão do Automóvel aconteceu no fim do mês, e fizemos uma ampla cobertura dele. Mas nenhum dos modelos apresentados então teve o mesmo impacto do EX2.

Dezembro de 2025: UE propõe suspender o banimento da combustão interna

Encerrando 2025 lembrando que más notícias também são notícias (e muitas vezes são as mais lidas). Atendendo a pedidos de suas montadoras, a Comissão Europeia propôs afrouxar suas regras que preveem o banimento total da combustão interna para 2035. Na época, havia uma sensação geral de revertério para veículos elétricos, cheio de cancelamentos por conta de montadoras – impulsionado (aí a análise é nossa) pelo primeiro ano de Trump 2.

Com a crise no Estreito de Ormuz e um boom de elétricos acontecendo na Europa, é bem possível que a proposta agora termine engavetada. Por enquanto, ainda vale o banimento para 2035.

Janeiro de 2026: Tesla passando o bastão

Em 2025, e pela primeira vez na história, a Tesla perdeu o posto de maior montadora de carros elétricos para uma concorrente chinesa, a BYD. Que venceu com uma folgada margem de 37%. Desde então, no primeiro trimestre de 2026, que foi horrível para a BYD, a Tesla chegou a recuperar a coroa com pouca vantagem, mas recobrou a liderança desde então.

A passagem desse bastão da empresa que basicamente iniciou a nova era dos elétricos é um feito histórico em si. Mas ela também pode ser lida como um fato simbólico geopolítico, para além de apenas carros.

Fevereiro de 2026: a lei do direito de recarga

Com um projeto de lei bipartidário, unindo um deputado do PT e outro do Podemos, o estado de São Paulo passou a considerar ter um carregador em casa um direito do proprietário do imóvel. Desde que haja adequação técnica, condomínios não podem mais impedir ninguém de instalar um wallbox.

A ABVE celebrou então o evento como um grande passo para a eletrificação no Brasil, e com bons motivos: o que pode tornar carros elétricos até 80% mais econômicos para se mover que carros a combustão interna é a possibilidade de ter um carregador em casa. E carregadores rápidos em postos, além de mais caros, e não disponíveis em muitas cidades, já foram apontados como vilões do desgaste da bateria.

Março de 2026: Dolphin Mini se torna o rei do varejo

Esta é provavelmente a primeira grande notícia do boom dos elétricos que está acontecendo no Brasil. Nas vendas de fevereiro (que foram divulgadas em março), pela primeira vez na história do país, um carro elétrico se tornou o favorito dos consumidores. O Dolphin Mini se tornou o carro mais vendido no varejo – em concessionárias, o método permitido para a grande maioria das pessoas físicas.

O Mini manteria sua coroa do varejo até julho, quando foi superado pelo BYD Dolphin, mas “caiu para cima”. Ele continuou a ser o carro elétrico mais vendido do país no número total. Aconteceu que parte de suas vendas – quase 30% – agora são vendas diretas, feitas para pessoas jurídicas (e PCDs, taxistas e proprietários rurais). É basicamente o único carro elétrico relevante nessa modalidade.

Abril de 2026: Crise do Estreito de Ormuz leva a uma corrida para os elétricos

A Guerra do Irã, iniciada pelos Estados Unidos em 28 de fevereiro, levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do suprimento mundial de petróleo. Isso levou a um aumento no preço dos barris não visto desde a crise de 1973, que encerrou a era dos muscle cars e fez o Brasil iniciar seu programa de etanol.

O consumidor europeu ouviu o recado em bom e alto som: com a instabilidade de preços, a adoção de carros elétricos aumentou 50% na região. Como acontece no Brasil, o bolso acabou pesando bem mais que considerações ambientais.

Maio de 2026: carros elétricos usados desvalorizam menos que os a combustão

A consultoria Indicata fez uma revelação contrariando frontalmente o senso comum, de que carros elétricos usados desvalorizam mais que modelos a combustão interna (e, portanto, são menos desejáveis). Na verdade, os BEVs eram então os modelos mais procurados pelo consumidor, e com a menor oferta.

Inclusive fizemos um teste prático, tentando achar um Dolphin Mini por menos de R$ 100 mil a venda no país: achamos 7 anúncios confiáveis no país inteiro, e o mais barato estava em R$ 96 mil.

Note que a Indicata não acha que a situação é permanente, quando a oferta de elétricos usados aumentar, e acredita na desvalorização dos elétricos usados pela chegada de novas tecnologias.

Junho de 2026: o primeiro híbrido plug-in flex

Tratamos híbridos plug-in com contido entusiasmo porque, na prática e por n razões, eles não têm o efeito no ambiente que se propõem a ter. E também perdem uma vantagem fundamental dos elétricos, que é o menor custo de manutenção.

Mas qualquer passo na direção de democratizar veículos de novas energias – ou seja, aqueles que podem se movimentar sem precisar de combustível no posto, como híbridos convencionais – é motivo para celebrar. E a GWM chegou na frente ao tornar o Haval H6 PHEV o primeiro híbrido plug-in flex do mundo.

Como o brasileiro consome etanol até quando não quer, pela mistura crescente na gasolina, é fundamental que os híbridos plug-in brasileiros aceitem essa opção.

Menção honrosa: atendendo a um pedido da BYD, decisão do governo estendeu a isenção fiscal para os kits de montagem CKD.

Julho de 2026: preços de carros a combustão são pressionados para baixo

Num mês que registrou um marco negativo – o primeiro incêndio de carro elétrico com vítima fatal no Brasil – a Bright Consulting revelou algo que já estava habitando a percepção popular: que carros elétricos chineses estavam levando as montadoras tradicionais a revisarem para baixo os preços de seus carros.

Essa não é uma interpretação da consultoria, mas nossa: esses números têm uma grande relevância porque indicam a desvalorização de um produto que começa a ser visto como menos desejável do que seu sucessor. É um importante ponto de virada.

Agosto de 2026: novidades no Festival Interlagos

O Festival Interlagos é uma espécie de mini (mas nem tão mini assim) Salão do Automóvel acontecendo no famoso autódromo de São Paulo. Ele tem um clima mais de feira que de salão, com atrações ao ar livre e o uso da pista para testes e outras atividades.

Três marcas aproveitaram o evento para anunciar sua estreia no Brasil então: a Dongfeng (que se chamará DFM) entra com dois compactos, um de entrada, a BAIC entra com dois crossovers médios, a iCaur traz um “jipe” EREV, e a MG Motor estreou um (na prática) supercarro com sua submarca IM Motors.

Setembro de 2026 (?): o Brasil entra no clube dos 10%

O mês não chegou a 1/3 ainda, então não dá para ter certeza se alguma bomba pode aparecer. Mas dificilmente ela poderia superar este marco histórico: em agosto de 2026, o país ultrapassou a marca de 10% de elétricos puros entre veículos leves.

O número exato foi 10,36%, e dá para considerar também o de carros (12,75%), porque a presença de elétricos entre comerciais leves é, infelizmente, praticamente nula. Não chega a três dígitos.

Quando o evdrops começou, o mês anterior, agosto de 2025, registrava 3,54% de elétricos entre os veículos leves e 4,4% em apenas automóveis. Foram 7.603 veículos leves elétricos emplacados no mês. Em agosto de 2026, esse número foi para 27.159. Um aumento de 256%. E provavelmente continuaremos a ver esses aumentos anuais gigantescos até pelo menos fevereiro do ano que vem, quando dá para celebrar o primeiro ano do boom dos elétricos no Brasil.